Érika Pelegrino e Patrícia Zanin
De Londrina
Ensinar o que é o amor pode parecer em um primeiro momento algo absurdo. Mas o psicólogo e terapeuta de famílias de Campinas (SP), Ivan Roberto Capelatto, esteve em Londrina justamente para ensinar ‘‘o que é o amor’’ em palestra para pais e educadores e num curso para profissionais de saúde e educação. Ele justifica a necessidade afirmando que vivemos numa sociedade que baseia as suas relações na indiferença.
‘‘Estamos perdendo, de maneira imperceptível, o que nos diferencia de outros bichos: a afetividade’’, afirma. ‘‘Hoje somos predadores, destrutivos, angustiados. Matamos os bichos, os rios, os nossos semelhantes, destruímos nossos filhos’’, alerta.
Capelatto explica que a falta de afetividade na sociedade atual estimula a perda gradativa da identidade, fazendo com que a referência do ser humano se desloque para o prazer e para a posse de objetos que o proporcionem. O enfoque está no ‘‘ter’’ e não no ‘‘ser’’, ressalta. O resultado é uma sociedade indiferente, anestesiada, voltada apenas para o prazer imediato e sem a preocupação em cuidar do outro.
Sem esta preocupação, crianças e adolescentes não são preparados para suportar frustrações, desenvolvem doenças psicossociais graves: ‘‘Há dois anos, o índice de suicídios entre jovens com idades de 11 a 18 anos era de 15 por dia no País, hoje é de 30 por dia’’, alerta.
Na visão de Capelatto, o caminho para esta ‘‘sociedade anestesiada’’ é o resgate do papel afetivo das instituições sociais, principalmente a família, como forma de permitir ‘‘o acolhimento e a escuta da angústia do jovem’’, ajudando-o a suportar frustrações, perdas e medos.
O adolescente coloca a angústia para fora em forma de agressividade e normalmente em casa, onde deve ser o lugar de maior afetividade. Os pais só precisam ouvir, sem tecer comentários. ‘‘Se não colocar a angústia para fora através da fala, o jovem irá buscar outras saídas e a nossa sociedade doente oferece várias: bares, álcool, drogas’’.
Capelatto é contundente: ‘‘Temos que convencer o Estado, pais e educadores que não existem adolescentes maldosos. Existem adolescentes em sofrimento. Como aqueles que queimaram o índio em Brasília. Eles estavam fazendo um pedido de socorro’’, afirma.
O jovem, de acordo com Capelatto, não vai chegar e falar que está angustiado por causa disto ou daquilo e que precisa conversar. ‘‘A angústia é inconsciente e incontrolável. A pessoa só se dá conta dela quando está em alto grau de agressividade’’, explica.
Segundo o psicólogo, a falta de afetividade nos levou a perder a capacidade de entender que a agressão é um pedido de ajuda.‘‘Um País que tem Febem é um país que não escuta seus adolescentes’’, declara.
Diante deste quadro, o psicólogo vê a necessidade de estar fazendo palestras, ministrando cursos para ‘‘ensinar o que é o amor’’ e falar sobre a afetividade. Ele ressalta que a forma mais saudável de se relacionar é através do afeto. ‘‘Mas não se iludam: o afeto é duro, não há romantismo na afetividade, por desencadear o medo da perda e com ele sentimentos como inveja, ciúmes, raiva e agressão’’.
Capelatto explica que estabelecemos um jogo com as pessoas que são objeto de nosso afeto, inclusive com nossos filhos, marcado pela presença e ausência. Na ausência aflora o amor puro; na presença, muitas vezes agredimos a pessoa que amamos.
Segundo ele, a nossa sociedade começou a adoecer nos últimos 30 anos quando as relações começaram a ser adulteradas e passaram a ser baseadas no individualismo, na indiferença.‘‘Se não houver um mundo afetivo para a criança, ela irá falir como adulto’’, alerta.

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