Emerson Cervi
De Curitiba
O ‘‘acidente de trabalho’’ na quarta-feira envolvendo Vicerino Ribeiro e Antônio Padilha, da Delegacia de Alto Maracanã, em Colombo, Região Metropolitana de Curitiba, reascendeu a polêmica sobre a falta de policiais civis e o exercício da profissão por pessoas não habilitadas. Os supostos colaboradores da delegacia prenderam dois suspeitos e estavam conduzindo-os para a prisão até a delegacia quando foram baleados na cabeça por um dos detidos.
Apesar de algemado, o pedreiro Cleverson da Silva conseguiu sacar o revólver que levava sob a camisa. Os colaboradores não fizeram a revista dos presos antes de algemá-los. Até ontem, eles continuavam em estado grave, internados na UTI do Hospital Cajuru, em Curitiba.
Para o presidente do Sindicato das Classes Policiais do Paraná (Sinclapol), Luiz Bordenowski, a ação de colaboradores nas delegacias é um sintoma da falta de investimentos no aparato policial do Estado. ‘‘Essas duas pessoas não tinham treinamento para captura e agora quero ver quem será responsabilizado e se o Estado vai indenizar as famílias deles em caso de morte’’, diz.
No caso de Alto Maracanã, o delegado Iberê Toniolo garante que Vecerino Ribeiro e Antônio Padilha não tinham autorização para fazer prisões. Ribeiro era auxiliar administrativo, sem concurso. Padilha não tem ligação oficial com a delegacia. Caso sobreviva, Ribeiro responderá um inquérito administrativo e Padilha deve ser processado por falsidade ideológica. O delegado não quis informar o número de policiais concursados e não-concursados que trabalham em Alto Maracan㠑‘por questão de segurança’’. ‘‘Eles agiram por conta, não tinham autorização para fazer diligências e responderão por isso’’, completa. Os presos estavam sendo levados para a delegacia em um carro recuperado de furto, que estava no pátio da delegacia.
Bate -pau Segundo o presidente do Sinclapol, é comum a atuação de colaboradores (entre os policiais eles são chamados de bate-pau) nas delegacias paranaenses. ‘‘Não há efetivo para manter parte das delegacias de cidades pequenas em funcionamento e a polícia tem que usar esse tipo de mão-de-obra.’’ Como não são concursadas, essas pessoas não recebem salários oficiais. ‘‘A maioria deles vive da cobrança de ‘caixinha’ de moradores da cidade, sem o conhecimento de todas as autoridades.’’
De acordo com dados do Sinclapol, 270 dos 399 municípios paranaense não têm nenhum policial civil de carreira. ‘‘Praticamente não há polícia judiciária nesses municípios e a PM (Polícia Militar) tem que recorrer à sede da comarca quando acontece um crime nessas cidades.’’
Atualmente, a Polícia Civil do Paraná possui 3.040 funcionários na ativa. Segundo o presidente do Sinclapol, o efetivo mínimo para o Estado deveria ser de 7 mil. ‘‘É impossível fazer uma estatística sobre o número de bate-paus nas delegacias hoje, mas até em cidades de porte médio como Guarapuava e Paranaguá já encontramos bate-paus em escalas de plantão.’’
É ilegal a presença de funcionários não concursados em atividades nos distritos policiais. ‘‘Mas a Polícia Civil é vítima do sistema e em especial da omissão do governo do Estado e da Secretaria da Segurança Pública que não aumenta o efetivo’’, lembra Bordenowski. De acordo com ele, em Foz do Iguaçu existem apenas 80 policiais concursados. Em Londrina, segunda maior cidade do Estado, são 180. ‘‘Como se trata de um centro metropolitano seriam necessários pelo menos mil policiais’’, completa.

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