CRESCIMENTO Falha na educação cria doenças sociais O psicoterapeuta Ivan Capelatto faz um alerta aos pais: mitos, ritos e a história familiar não podem ser desprezados ReproduçãoCULTURANa mitologia romana, os gêmeos Rômulo e Remo, criados por uma loba, fundaram Roma: o mito dá sentido a um fato Érika Pelegrino de Londrina Cerca de 35 milhões de crianças e adolescentes vivem em estado de abandono no Brasil, segundo a Unicef. O país também registra uma média de 30 a 35 suicídios diariamente de crianças e adolescentes. O brasileiro convive com estes dramas e com as notícias de crimes violentos cometidos por menores como se estivesse anestesiado diante de uma sociedade que adoeceu. O alerta é do psicólogo-clínico e psicoterapeuta Ivan Roberto Capelatto, de Campinas (SP), que esteve em Londrina no final de fevereiro ministrando curso. Trabalhando com pacientes de todas as idades e também com famílias, Capelatto conta que pesquisas realizadas no mundo todo têm mostrado que o homem está perdendo progressivamente a capacidade de afetividade e criando em seu lugar um narcisismo selvagem marcado pela indiferença e falta de cuidado com o outro. As origens desta ‘‘doença’’ que acomete o ser humano e está adoecendo a sociedade está na destruição dos mitos, ritos e desprezo pela história. ‘‘A doença mais grave que acomete o ser humano é a doença do social, que aparece toda vez que uma sociedade lesa a cultura, a história, o mito, o rito. Ao lesarmos o acesso do indivíduo a isto, nós adoecemos o lugar onde ele vive e criamos como efeito rebote o instinto de morte’’, explica Capelatto. Ele afirma que sem história não há desejo e o desejo é a marca da saúde mental. A capacidade de cuidar do ser humano está intrinsicamente ligada a sua capacidade de desejar e de esperar prazerosamente pela realização do desejo. ‘‘Nós cuidamos daquilo que obtemos pelo desejo e não pela necessidade’’, explica. Sem mitos, sem desejo, sem o prazer de cuidar, temos uma sociedade como a do Brasil e de países vizinhos onde 85% da população vive não só a miséria econômica, mas a miséria de sentimentos, o abandono. Mas o que teria haver mito, história, desejo, prazer em cuidar, com uma condição econômica e social caótica como a que vive a maioria da população? A ligação é aparentemente simples. O psicoterapeuta afirma que a este contigente de pessoas em estado de miséria, o que falta é cuidado. Segundo ele o problema está no fato de que as pessoas se ‘‘colocam no lugar de cuidadores (governantes), mas não têm o desejo de cuidar. Estas pessoas não estão com sua afetividade em ordem’’. Sem cuidado e sem desejo, o psiquismo do homem fica comprometido e cria-se espaço para o aparecimento de doenças mentais. Para sobreviver à destruição dos mitos – ‘‘que é a maneira única de o ser humano pertencer à Terra’’ – o homem acaba criando mitos individuais. ‘‘Só que os mitos individuais criam uma relação muito íntima com uma doença mental, o que não acontece quando trabalhamos com um mito maior’’, explica Capelatto. ‘‘Os pais criam mitos individuais sobre seus filhos e isto é terrível para eles’’. Mas afinal porque o mito é tão importante para a saúde mental do homem? O psicoterapeuta explica que o mito serve para dar sentido a um fato. Quem tem mito vive o agora de uma maneira plena. Ao se adulterar um rito, um mito, provoca-se perdas e o homem se aproxima da doença. Um exemplo comum em lares cujos pais estão infelizes e ansiosos é dar presentes aos filhos antes das datas comemorativas como Natal, Dia das Crianças, aniversário. ‘‘Ao fazer isto o pai quebra a ordem. Com certeza no Natal a bicicleta vai ter que estar quebrada ou sem valor, porque perdeu o sentido’’, explica. Conseguir esperar prazerosamente por um objeto de desejo, sem abrir mão dele, é a marca da saúde mental. ‘‘Quando uma sociedade não consegue esperar pelo Natal, pelo Dia das Crianças, pelo aniversário, ela começa a fazer o jogo de instinto de morte’’. Substituímos o desejo pelo ‘‘prazer jᒒ e criamos uma sociedade psicopatológica que permite psicopatias. Segundo Capelatto, a maior permissão de psicopatia é não permitir a afetividade de ausência, as lembranças, a memória, a história. ‘‘Sem história não há desejo, sem desejo não há cuidado’’, constata. Sem o prazer em cuidar, o homem torna-se cada vez mais insensíveis aos pedidos de socorro uns dos outros diante da angústia. ‘‘É preciso ouvir a angústia, que é a idéia de que algo foi deformado dentro de mim. Quando não canalizamos nossa angústia podemos tentar anestesiá-la de diversas formas e a mais deteriorante é causando dor ao outro’’, explica o psicoterapeuta. Capelatto cita o caso do jovem que 25 dias antes de se formar em medicina, entrou em um cinema em São Paulo e matou três pessoas: ‘‘Ele fez diversos pedidos de socorro: se envolveu com drogas, com traficantes, escreveu cartas de horror aos pais, se isolou; até que no auge de sua angústia deu uns tiros no cinema e foi socorrido pelos policiais. Hoje ele vive feliz na prisão’’. ‘‘A angústia é o resultado da falência da economia do nosso psiquismo’’, diz o psicoterapeuta. Dela surgem doenças que os psiquiatras chamam de psicopatologias de contato: depressão, consentimento, inveja, dinheiro, sedução e sedição. A mais grave, segundo Capelatto, é o consentimento, que gera a desidentificação, o indivíduo pára de cuidar do outro, nega o desejo. Outra doença facilmente identificada em nossa sociedade é a sedição. Esta psicopatologia de contato é muito comum em gangues e é caracteriza pelo prazer de alterar a ordem pública. Sem capacidade para obter prazer, a pessoa nega o prazer ao outro no domínio público – quebra telefones públicos, ouve som em volume altíssimo, sai buzinando de madrugada. ‘‘As psicopatologias de contato são características de uma sociedade que se tornou psicopata e permite as psicopatias’’, afirma Capelatto. ‘‘Nas delegacias, nos fóruns, vemos que quase todos os crimes são de psicopatologia de contato’’.