Falha em atendimento pode ter causado morte
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sábado, 29 de março de 2003
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Uma sucessão de erros, começando pelo diagnóstico (amigdalite) e medicação (AAS) pode ter sido a causa da morte de Isabel Cristina Ramos, 29 anos, a primeira vítima com sintomas clínicos confirmados de dengue hemorrágica em Londrina.
Isabel era auxiliar de enfermagem e trabalhava em uma clínica. Ela começou a passar mal no domingo passado. Na segunda-feira, ela procurou o posto de saúde que fica perto da casa da família, no Parque das Industrias Pesadas (zona oeste). '' Eles diagnosticaram amigdalite e medicaram com AAS'' conta a irmã, Claudia Ramos, que também é auxiliar de enfermagem e trabalha num posto de saúde municipal. ''Como eu estou acompanhando as informações sobre dengue, disse prá ela não tomar o AAS. Nós estranhamos o diagnóstico porque ela nem tinha dor de garganta''.
No mesmo dia, à noite, a família levou Isabel no Hospital Zona Sul, onde ela foi medicada com soro e mandada de volta para casa. A mesma coisa se repetiu na quarta-feira: ''Minha irmã estava cada vez pior. Eles suspeitaram de dengue, eu pedi prá fazerem a prova do laço, mas não fizeram'', lembra Claudia. Na sexta-feira Isabel quase não conseguia mais andar, tinha vômitos e diarréia. Foi levada pela mãe novamente ao Hospital Zona Sul. Desta vez foi internada. Segundo a família, ela passou a tarde toda tomando soro. Só no final do dia um dos médicos percebeu a gravidade do caso e tentou uma vaga na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário (HU) mas era tarde demais. Isabel teve uma parada cardíaca e morreu às 19h30m. ''Vieram nos dizer que a causa da morte era edema agudo de pulmão mas nós não aceitamos isso e pedimos uma autópsia'', afirma Claudia.
O Secretário de Saúde Silvio Fernandes confirmou ontem de manhã que o diagnóstico de dengue e o exame do laço que aponta sintomas de dengue hemorrágica só foram feitos na sexta-feira de manhã. Ele disse que ainda não teve acesso aos prontuários do hospital e do posto de saúde mas que a Secretaria vai fazer uma investigação minuciosa para saber se houve falha no atendimento.
O diretor do Hospital Zona Sul, Marcelo Mendonça, também não sabe o que aconteceu. ''Só tenho informações do atendimento na sexta-feira. O que foi feito antes disso eu ainda preciso investigar e vou fazer isso já na segunda-feira'', declarou Mendonça. Ele nega que a família tenha pedido a autópsia de Isabel: ''Fomos nós que solicitamos autorização dos pais para fazer a autópsia. Nós temos todo interesse em descobrir a causa da morte desta moça'', afirmou o médico. Ele informou que o atestado de óbito diz que Isabel morreu por choque hipopolêmico, uma diminuição da circulação, que pode ter sido causada por dengue hemorrágica. ''É a causa mais provável'' reconheceu Mendonça.
A família estava revoltada ontem, no velório de Isabel. ''O que me entristece é saber que eu cuido tanto das pessoas lá no posto e ninguém teve o mesmo cuidado com a minha irmã. O Secretário de Saúde diz que os postos e hospitais estão preparados para a epidemia mas isso não é verdade e a morte da minha irmã prova isso'', desabafou Claudia. A família agora quer rapidez nos testes que vão comprovar a causa da morte. Além de sangue, foram retiradas amostras do fígado e baço para exames complementares.
A diretoria de epidemiologia da Regional de Saude, Josemari de Arruda Campos, reconhece que há profissionais na área de saúde que estão despreparados para lidar com uma epidemia de dengue: ''Temos oferecido diversos treinamentos, desde o ano passado, mas sabemos que ainda há profissionais não capacitados'', disse Josemari.


