Em uma casa no Conjunto Ernani Moura Lima, na Zona Leste, a reportagem é recebida de forma acolhedora por uma senhora de 58 anos. Ela trabalha em casa, lavando roupas. Ao entrar na sala, a neta Luana (nome fictício), 16 anos, senta em uma cadeira e se distrai com as lentes da câmera do repórter fotográfico. A avó sai da sala para nos deixar à vontade.
A entrevista começa tímida, mas não demora para que Luana se sinta mais confortável ao responder as perguntas. Sentada à frente, a menina de cabelos pintados, vestida com uma bermuda de surf e uma blusinha que deixava à mostra o colo e a barriga, não deixa dúvidas de que é uma garota fragilizada pelo vício do crack.
Sua presença na casa da avó é uma raridade. Luana fica de sete a dez dias nas ruas, usando droga e fazendo programas para obter dinheiro. Aos 10, 11 anos, ela perdeu o vínculo com a mãe e com o pai, ambos viciados em álcool. ''Eu comecei porque minha mãe me jogou na rua. Daí eu fui conhecendo as coisas. Vô e volto (sic)'', diz ela, se referindo à casa da avó.
Luana começou a usar crack aos 11 anos, período em que também começou a se prostituir. Questionada sobre o que faz na rua, ela é enfática. ''Programa. Às vezes faço uns 20 por dia e olha lá. Cobro R$ 30 para fazer de tudo. Mas uso camisinha e vou no motel.''
Com o dinheiro em mãos, Luana compra mais pedras de crack e admite que apesar de já ter pensado em parar, não consegue. ''Dá uma pira de querer voltar e, quando eu vejo, já tô nas ruas de novo. Só não sinto muita vontade de usar (crack) quando eu estou na casa do meu namorado, que fica em outra cidade. Ele quer me levar pra lá, mas eu ainda não sei'', comenta. Diante da resposta, a reportagem questiona a dúvida da garota. ''Porque lá não tem droga'', responde.
Nesse momento, Luana começa a ficar incomodada. Sem perceber, ela balança as pernas e esfrega as mãos e o rosto repetidamente. Logo em seguida, revela que está um dia ''limpa'', sem usar droga e sem tomar pinga, como ela mesmo admite.
Já no final da entrevista, Luana afirmou ter medo das ruas e contou que apanhou há dois dias. ''Olha só o desacerto que eu levei'', comentou, ao mostrar os machucados. Ela se queixou do rosto marcado por um corte, revelando certa vaidade. A agressão ocorreu na rua porque ela não topou fazer um programa. O Samu foi acionado por outros usuários.
Luana é um das meninas que perambulam pela Avenida Brasília para sustentar o vício. Segundo ela, muitas meninas fazem o mesmo. ''Tem menina de 12 fazendo programa'', afirma.
Pedido de socorro
Ao sair da sala, a avó de Luana vai para o quintal e afirmou saber de tudo que a neta faz. Ela disse ter buscado todas as formas de mudar essa realidade, mas revelou não saber mais o que fazer.
''Às vezes ela me liga da rua e eu só fico esperando ela chegar. Mas é sempre igual. Ela chega sob efeito da droga, me pede um copo de leite e quando vou ver, já apagou. Ela só acorda 12 horas depois. Isso é o efeito de ter ficado noites e dias sem dormir'', lamentou.
A avó sabe que não pode lutar sozinha contra o vício da neta. Dias atrás, Luana chegou em casa com pedras de crack escondidas na boca. ''Eu queria que Deus a abençoasse e me desse uma solução porque sei de muitas meninas como a Luana. Resolvi falar com vocês porque é um pedido de socorro. Pode acontecer com qualquer um'', desabafou, emocionada. Após minutos de silêncio, ela completou: ''Elas entram nessa vida e nós temos que ter força para tirá-las dela. É por isso que eu não vou desistir nunca da minha neta''. (M.O.)

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