Maigue Gueths
De Curitiba
Tomar remédio sem receita médica é certo ou errado? Depende do ponto de vista. Médicos em geral defendem que as pessoas só devem consumir medicamentos após consulta médica e prescrição da receita adequada. Por outro lado, a cada dia, aumenta mais um movimento internacional pela automedicação responsável, ou seja, pelo uso dos medicamentos de venda livre, sem tarja vermelha ou preta, e que podem ser comprados diretamente no balcão das farmácias. São os medicamentos OTC, que em inglês significa ‘‘over the counter’’.
A Associação Brasileira da Indústria de Produtos para a Saúde (Abips), que representa 24 fabricantes responsáveis por 80% das vendas dos medicamentos isentos de prescrição, garante que a automedicação responsável é um conceito aprovado e recomendado desde 1986 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e reconhecido pelo Conselho da Associação Mundial de Medicina (WMA). Estas entidades recomendam a existência de medicamentos eficazes e comprovadamente seguros que possam ser adquiridos sem necessidade de consulta médica, e que tragam alívio de pequenos sintomas facilmente diagnosticados. Nesta categoria, estão algumas classes terapêuticas, como os analgésicos, antiácidos, vitaminas, expectorantes e alguns produtos para prevenir sintomas da gripe e dermatológicos.
Por enquanto, cada país adota um sistema. Produtos tarjados na Alemanha, por exemplo, são isentos de prescrição nos Estados Unidos que, por sua vez, são liberados apenas parcialmente no Brasil. No País há 19 classes terapêuticas de livre prescrição, contra 40 na Argentina. Nos Estados Unidos, 43 já estão liberados e outras 19 classes estão sendo analisadas.
O assunto, entretanto, causa polêmica. Para o diretor clínico do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, e tesoureiro da Sociedade Paranaense de Pediatria, Donizetti Geaniberardino, ‘‘a princípio, as pessoas devem seguir orientação médica para se medicar, pois um mesmo remédio vai causar diferentes consequências em um bebê, um jovem ou um idoso’’, diz. Segundo eles, um remédio simples, às vezes, pode trazer complicações. Dar melhoral infantil para uma criança com gripe, por exemplo, pode ser contra-indicado, apesar do medicamento não ser tarjado. Assim como uma simples aspirina para curar dor de cabeça pode trazer sérios consequências gástricas para quem tem problemas de estômago.
Sérgio Mokdisse, diretor executivo da Abips, lembra que a automedicação responsável prevê que a pessoa conheça o que vai lhe fazer bem. Por isso, ela deve seguir quatro regras básicas que servem justamente para evitar problemas: ‘‘Esses medicamentos só podem ser usados para combater pequenos sintomas ou maus menores dissociados de maus adversos; têm que ser medicamentos não tarjados; a pessoa deve seguir estritamente as recomendações do fabricante, lendo a bula para ver os efeitos colaterais e recomendações; e caso os sintomas não desapareçam dentro de cinco dias, ela deve procurar um profissional de saúde.
Para discutir melhor este assunto, a Abips vai realizar, em março de 2000, no Rio de Janeiro, a 1ª Conferência Regional Latinoamericana da WSMI – World Self-Medication Industry. O evento vai discutir o papel da automedicação na América Latina e as formas de se chegar a um critério único para registro e classificação desse tipo de produto.

Kit recomendado pela Abips
- Termômetro
- Analgésico: em comprimido, pó ou gotas contra dor e para baixar a febre
- Algodão: de uso farmacêutico e bem embalado
- Água oxigenada: 10 volumes, para desinfetar ferimentos
- Cicatrizante: para ajudar a fechar ferimentos
- Gaze, esparadrapo e curativos: compressas de diferentes tamanhos
- Laxante intestinal: há vários produtos naturais que estimulam o funcionamento dos intestinos sem causar dependência
- Soro fisiológico: para casos de desidratação acentuada
- Antiácido: em pó ou efervescente
- Digestivo: líquido ou efervescente
- Colírio: especialmente para irritação após mergulhos no mar ou na piscina
- Própolis: para ajudar na cicatrização ou aliviar irritações da pele ou garganta
- Pastilhas para dor de garganta
- Relaxante muscular: em gel, pomada ou comprimido para pequenos entorses e maus-jeitos
- Pomada antialérgica: para picada de insetos
- Cremes para queimaduras e hematomas.Associação de fabricantes de remédios forma movimento para aumentar a automedicação. Médicos alertam para os perigos
Albari RosaCUIDADOSOs fabricantes de remédios querem a automedicação apenas com produtos isentos de prescrição. Mesmo assim, médicos recomendam cautela

mockup