O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) está investigando denúncia de que a Tamarana Metais Ltda, empresa fabricante de baterias de Tamarana (62 quilômetros ao sul de Londrina), está poluindo o ar e a água do Parque das Indústrias, onde está instalada. A reclamação partiu dos moradores e proprietários de outras empresas localizadas no mesmo bairro. Eles acreditam que a fábrica está poluindo o ar e contaminando a água com chumbo.
Um grupo de empresários vizinhos da indústria, liderados por Santil Domingues Gonçalves, proprietário de uma madeireira instalada no Parque das Indústria, afirma que a empresa vem lançando gases poluentes e enterrando dejetos que podem estar contaminando a terra. ‘‘Eles mexem com baterias, enterram os resíduos, talvez ácido de bateria, e podem estar contaminando a água que o pessoal utiliza em poços. Além disto, o mau cheiro é tanto que as pessoas começaram a ficar doentes, com náuseas, tonturas e dores de cabeça frequentemente’’, contou.
Paulo WolfangVizinhosSantil, a mulher e a filha: exames apontam presença de chumbo no sangueGonçalves disse que ficou ainda mais preocupado depois de levar a filha menor - na época com dois anos - para um exame médico, em março do ano passado. O resultado do exame de sangue apontou 6 microgramas de chumbo por decilitro de sangue (ug/dL) no organismo da criança. ‘‘Em dezembro, tornei a repetir o exame em minha filha e o resultado dobrou, passando para 12 ug/dL. Eu e minha mulher também fizemos os exames que apontaram para 22 ug/dL para mim e 13 ug/dL para ela. Os adultos podem suportar até 40 ug/dL e as crianças até 25’’, mostrou.
Embora as taxas estejam dentro da normalidade, o empresário insiste no perigo. ‘‘Nós moramos em frente à indústria. De dezembro para cá, a taxa de chumbo no sangue pode ter dobrado. Além disto, a fumaça e a água das enxurradas podem estar contaminando o pasto. Deve ter muita gente na cidade que está bebendo leite contaminado’’, teme.
Além disto, segundo ele, o maior perigo é com a água. ‘‘Nós utilizamos água de um poço artesiano, de 150 metros de profundidade, já que o bairro não tem água encanada. E este povo que mora aqui - cerca de 60 famílias - utiliza poços comuns, de 10 a 15 metros de profundidade. Se fizerem um exame na água certamente constatarão uma taxa de chumbo altíssima’’, acredita.
Paulo WolfgangEmpresárioCunha: ‘Tontura e sufocação’Preocupado com o problema, Santil Domingues Gonçalves mandou as duas filhas, de nove e três anos, morar com a avó, na cidade. ‘‘Elas estão lá já há seis meses. E pra cá não voltam. Eu vou me mudar daqui, talvez até para Lerroville’’, garantiu.
Outros empresários da região apoiam a reclamação de Santil Gonçalves. Segundo Vilmar Cunha, proprietário da Serraria Madilar, também vizinha à indústria, a fumaça expelida pela Tamarama Metais está provocando mal estar físico em seus funcionários.
‘‘Tem hora que nem dá para trabalhar. O pessoal começa a ter tontura e sufocação. O cheiro é muito forte. Antigamente, eles só soltavam a fumaça de madrugada, mas agora é a qualquer hora do dia. Quando chove é pior ainda, desce uma enxurrada poluída para cá, com cheiro ruim. Deve estar poluindo todos os córregos da região’’, afirmou Vilmar Cunha.
Uma das funcionárias de Cunha, Marta Ribeiro de Paulo Mendes, mora com os três filhos - de 15, 13 e 8 anos - na serraria e confirma a emissão de gases. ‘‘Tem dia que cobre isto aqui de fumaça. Mas de noite é pior, vem aquela catinga de pólvora, um cheiro ruim que nem dá para dormir. No outro dia, a gente amanhece doente, com dor de cabeça, ânsia de vômito e tontura. Minha filha menor é a que mais sofre, está reclamando direto de tontura e falta de ar’’, contou Marta Mendes.
Para Amador Nogueira, que está montando uma torrefação vizinha, ninguém está querendo prejudicar a indústria. ‘‘Só queremos sobreviver aqui. Precisamos saber com certeza se eles não estão nos envenenando’’, disse.
Esta é a mesma opinião de Joaquim Ramos de Jesus, que está montando uma serraria na área. ‘‘O que a gente quer é que as autoridades façam exames para ver se está tudo certo’’, afirmou.
A reclamação é apoiada pelo vereador Santino Canedo (PMDB), de Tamarana, que, segundo ele, também já sentiu na pele os efeitos da emissão de gases. ‘‘Meus pais tinham uma chácara no bairro e tiveram que vender. Não aguentaram um ano. O cheiro forte faziam os dois passarem mal’’, garantiu.
Ademir Viana, proprietário da Cerâmica Tamarana Ltda, apóia os vizinhos. Segundo ele, a reclamação é unânime entre todos os empresários e moradores. ‘‘O seu Santil já está com chumbo no sangue. Não posso afirmar que a indústria está nos envenenando mas não podemos viver deste jeito. É preciso que o IAP faça uma análise detalhada do ar e da água’’, exigiu Ademir Viana. Mas, para Santil Gonçalves, as autoridades parecem não ter interesse no caso. ‘‘Na semana passada estive no IAP, protocolei a denúncia mas até agora nada. Falei também com o prefeito (Edson Siena), em dezembro. Ele disse que ia tomar uma atitude e até hoje nada’’, disse.

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