Londrina - Se o corpo fala, as expressões faciais revelam muito mais de nós mesmos do que podemos imaginar. "As expressões faciais funcionam como uma grande fonte de informação. Geralmente a gente fala, discursa, diz o que sente, mas a expressão facial mostra tudo isso a partir de minúcias de expressão e expressões mais marcadas", afirma a psicóloga Natalia Mendes Ferrer, de Londrina. No início do mês, ela ministrou um curso de interpretação das expressões faciais dirigido a profissionais e estudantes das áreas de Psicologia e Direito Forense, quando abordou técnicas, aspectos históricos e sua aplicabilidade.
A psicóloga defende que a interpretação correta das expressões faciais pode ser uma importante aliada nas relações comportamentais, mas não só. Já há estudos sobre a viabilidade do uso da técnica por psicólogos e terapeutas para a identificação de transtornos sensíveis em pacientes, como a depressão, por exemplo. Um mal que já atinge 350 milhões de pessoas em todo o mundo. "Existem instrumentos sendo desenvolvidos para identificar um estado de depressão pela mensuração da expressão facial do paciente, para verificar se há uma relação com a depressão. A gente percebe sim uma face mais constante de tristeza, de estar mais distante, com uma expressão mais contraída", explica a profissional do Instituto de Terapia e Análise do Comportamento (PsicC).
E nas relações pessoais, acrescenta Natalia, é por meio das expressões faciais que demonstramos nossas reações mais instantâneas. Corremos o risco de ser mal interpretados dependendo da forma como reagimos com o olhar, o franzir da testa, o mexer da boca. Por isso, afirma a psicóloga, é possível e preciso saber dosar as expressões de forma a evitar mal-entendidos e até mesmo para identificar o comportamento do interlocutor e avaliar como ele está interpretando aquilo que estamos querendo dizer.
"Pode ser muito favorável você estar atento às expressões faciais ao se relacionar com outras pessoas. As expressões acontecem naturalmente, é automático, mas o quanto elas se mantêm nós podemos ter o controle. É uma questão muito mais comportamental", observa. "Vamos supor que eu esteja conversando com você e estou apontando alguma coisa e percebo que a sua expressão facial está mudando. Você está ficando com raiva, parece que não está gostando do que estou dizendo; eu posso alterar o tom de voz, mudar o conteúdo da minha fala, para não brigar com você", exemplifica a psicóloga.

HISTÓRICO E MENTIRAS
Imortalizado por formular a teoria da evolução, o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) foi o primeiro estudioso a abordar a universalidade das expressões faciais em seres humanos e nas espécies animais. Atualmente, aponta Natalia, a principal referência no assunto é o psicólogo norte-americano Paul Ekman, que desenvolveu alguns instrumentos de software capazes de mensurar as expressões faciais e que também servem para aplicar treinamentos de identificação das expressões.
Alguns desses programas, como o Facial Action Coden System (FACS), são utilizados em modernos polígrafos – detectores de mentira – em depoimentos. "Tem um instrumento de temperatura facial que mostra que alguns locais da sua face ficam mais quentes quando você está mentindo", diz a psicóloga. Não é por acaso que Paul Ekman foi o consultor da série televisiva norte-americana "Lie to me" (Minta para mim).
E por falar em mentira, Natalia revela que na última eleição era possível identificar pelas expressões faciais o quanto os candidatos, todos eles, faltavam com a verdade nos acalorados debates na TV. Eles mentiam muito? "Bastante. Era possível identificar a dissimulação de diversos candidatos e os gestos de manipulação não apenas na expressão corporal, mas facial. Eles tentam camuflar muita coisa", responde a psicóloga. Está aí mais uma serventia do estudo.

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