Curitiba - No dia de finados, familiares de pessoas que faleceram há algum tempo trocaram a ida ao cemitério pela visita a uma exposição de arte. Mas sem deixar de prestar homenagens aos entes queridos. Um crematório curitibano inaugurou, ontem, uma mostra com 14 obras de sete artistas plásticos que incorporaram parte das cinzas de dez pessoas a sua matéria-prima.
Os resultados foram quadros e esculturas retratando hobbies, memórias e personalidades dos parentes falecidos. A ideia surgiu há cerca de quatro meses, com base em experiências semelhantes já tradicionais em outros países.
Segundo a diretora do crematório, Mylena Cooper, a iniciativa é inédita no Brasil. ''Nós percebemos que as pessoas fazem a cremação, mas ainda precisam de uma referência física para poder prestar homenagens a seus familiares. A maioria daqueles a quem propusemos a ideia aceitou logo'', explica.
Já o convite feito aos artistas não foi tão simples assim. Mylena conta que vários recusaram. Quem aceitou o desafio precisou de muito planejamento e estudo para incorporar as cinzas aos seus materiais habituais.
''É um trabalho diferente. Mas não existe um aspecto fúnebre, é apenas uma nova concepção'', diz o escultor Tony Reis, que criou três obras para a mostra.
Todo o trabalho foi feito em parceria, sem custos para os artistas ou familiares, que após o período da exposição ganharão as obras. Graciela Scandurra, também escultora, disse que aceitaria fazer outras produções com cinza humana. ''Senti como se as cinzas tivessem se transformado em terra. E é assim que vejo a morte, não como um fim, mas uma passagem.''
Os artistas não tiveram contato com as famílias e basearam seus trabalhos em um ''briefing'' passado pelo crematório. Foi na abertura da exposição que Maria Angélica Curia Cerveira viu como ficou a representação do marido Arnaldo, um apaixonado por pesca.
Após ver a figura de um peixe marlin, ela se emocionou e agradeceu Tony Reis por um trabalho ''tão lindo''. Antes guardado na sala de memória do crematório, agora uma parte de Arnaldo, morto há um ano, ficará enfeitando a casa de praia.

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