Exposição resgata casamentos de pioneiros
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terça-feira, 19 de maio de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Ibiporã- ''Ele já era meu conhecido, vinha de uma família boa, era um moço trabalhador e não me dava sossego. Ele dizia que eu era moça mais bonita de Ibiporã.'' ''Eu tinha amizade com os irmãos dela e a achava muito bonita. Fui perseguindo ela até que amoleceu e eu a agarrei.'' Depoimentos apaixonados do casal Lourdes Sípoli, 79 anos, e Ramon Lozan, 82, ilustram bem o que é a exposição Álbuns Urbanos, promovida pela Fundação Cultural de Ibiporã (Norte), que ficará à disposição do público pelos próximos três meses, em diversos espaços públicos da cidade.
Conforme o diretor da Fundação e criador do projeto, Julio Dutra, foi feita uma campanha de arrecadação de fotos junto aos pioneiros e retratos de 11 casais foram escolhidos para compor a mostra. ''Já estamos trabalhando no resgate histórico do município há quatro anos e, no final do ano passado, publicamos um livro com a história política de Ibiporã. Nesta etapa estamos contando como foram os casamentos na Igreja Matriz para depois resgatar a história das primeiras ruas, carros, capelas, profissionais'', explica Dutra.
Ele aponta que quando assumiu a diretoria da Fundação Cultural encontrou um acervo de mais de 10 mil fotos, ''todo desorganizado'', e que foi preciso organizar as informações para produzir o livro. ''Eram fotografias sem registro, que iam se perder. Neste projeto estamos escaneando as fotos e devolvendo aos donos para ficar só com o material digitalizado.''
E a partir dos registros fotográficos dos casamentos dos pioneiros dá para relembrar o crescimento da cidade, que um dia já pertenceu ao município vizinho de Sertanópolis. ''Rios não tinham ponte e para atravessar o Tibagi a gente usava uma balsa'', rememora Ramon Lozan. Ele chegou do interior de São Paulo com a família em 1940 e depois de trabalhar numa serraria, passou a ajudar o pai no transporte de café até o Porto de Paranaguá. ''Trabalhei com caminhão por 36 anos. Sou o caminhoneiro mais velho de Ibiporã.''
Tempos de escola
Lourdes, que também veio do interior paulista, chegou em Ibiporã em 1939, depois que o pai, que trabalhava na Transparaná, foi transferido. ''Moramos em Londrina, Cambé, Rolândia, mas sempre gostei mais de Ibiporã'', confessa a pioneira, que conheceu o futuro marido nos tempos da escola. ''Eu jogava barrabol e os meninos tiravam par ou ímpar para me ter no time deles.''
''Nos conhecemos com 14 anos e começamos a namorar aos 19. Um ano depois nos casamos na igrejinha que ainda era de tábua'', conta Lourdes. Cuidadosa, ela guardou o vestido pérola, de cetim, feito por uma prima, que pode ser visto ao lado da foto do casal, na exposição. ''Na festa servimos bolachinhas doces feitas na padaria, bolo e guaraná'', comenta a dona de casa, que já comemorou bodas de prata e ouro com o marido, com quem tem seis filhos, 14 netos e cinco bisnetos.
Penúltima neta, Angélica Cabrera Lozan, 19, conhecia a foto, mas não o vestido do casamento da avó. ''A gente só dá valor à história quando fica mais velho. Acho bacana meus avós participarem da história da cidade. Se não fossem os pioneiros, não existiria história'', destaca.
''Moramos nove anos na casa dos meus sogros. Quando fomos embora, eles choraram que nem criança'', lembra Lourdes, comentando que a família chegou a viver por três anos em São Paulo, mas acabou voltando. ''Tá todo mundo aqui perto, criamos raiz.''
Segundo o casal, na década de 1940, os moradores faziam até procissão para pedir chuva. ''Os pés afundavam no pó'', descreve Lourdes, citando que na época não existia água encanada nem luz. ''Em casa tinha um poço que nunca secava. Em época de seca, os vizinhos passavam o dia buscando água.''
''Mudou tudo. Conhecemos uma cidade de 6 mil habitantes que hoje já está com 50 mil. É uma coisa linda, me sinto realizado'', opina Lozan, que contribuiu para o abaixo-assinado que pediu a municipalização de Ibiporã, no final dos anos 1940. ''Não tem melhor cidade. A gente vai passear, mas dá uma saudade de casa, a gente não vê a hora de voltar'', resume Lourdes.


