A casinha de madeira construída por Franciele da Cruz, 8 anos, não mede mais do que 30 centímetros, mas dentro moram ela e mais três amigas. ''Tem um quarto, uma mesa e quatro cadeiras. Pintei de vermelho porque é a cor que me dá mais alegria'', explicou. A inspiração veio da casinha de brinquedo que a menina cobiçou em uma loja do centro da cidade, mas não teve dinheiro para comprar. História semelhante a de Rafael dos Santos, 12 anos. ''Fiquei com vontade de ter um caminhão desde que meu vizinho comprou um. Agora eu tenho'', contenta-se, mostrando o automóvel de brinquedo.
Como Franciele e Rafael, outras 70 crianças com idades entre 7 e 14 anos atendidas pelo projeto Viva Vida na unidade do jardim João Turquino (zona oeste de Londrina) deram vazão a seus sonhos ao construir os brinquedos que foram expostos ontem no Centro Comunitário do Conjunto Avelino Vieira, também na mesma região. Foram centenas de casas, bonecas, carrinhos, pipas, desenhos e personagens de massinha confeccionados ao longo de três semanas. Tanta variedade de cores, formas, tamanhos e significados partiu de um só tema: a cultura popular.
Tomando como mote o Dia do Folclore, comemorado no dia 22 de agosto, os educadores que há cerca de um ano realizam atividades artísticas e esportivas com crianças da região oeste incentivaram a produção de brinquedos e pinturas baseados em histórias, lendas e literatura escrita. ''Nosso objetivo era resgatar e valorizar a cultura. As crianças hoje estão muito apegadas a brinquedos eletrônicos. Quando não podem comprar brinquedos caros, sofrem porque não os possuem'', esclareceu a agente cultural Erika Patrícia Rodrigues, que trabalhou artes plásticas com o grupo.
Com a colaboração da comunidade, os brinquedos tiveram custo mínimo. Foram usados restos de madeira de uma fábrica de móveis, retalhos de pano e cortinas velhas retiradas do centro comunitário. ''Queríamos mostrar às crianças que elas podem fazer seus próprios brinquedos com material alternativo e barato'', explicou o coordenador do projeto Viva Vida no João Turquino, José Donizete dos Santos. Após a exposição, que poderá ser estendida para escolas da região, as crianças ficarão com os brinquedos. Não satisfeita, Brenda Maria Teodoro, 9 anos, já começa a planejar sua próxima criação. ''Vou cortar um shorts velho, pegar uma agulha e fazer uma nova boneca'', enumerou.
O resultado final dos trabalhos surpreendeu os educadores que, a princípio, não planejavam uma exposição. ''A gente não esperava, a coisa ficou grande demais. Precisávamos mostrar o trabalho para a comunidade da região, que só vê coisa ruim. Aqui as pessoas vêem que as crianças têm a capacidade de sonhar'', ressaltou Erika. Pessoas como o marceneiro Valdemir Dissoli, 41 anos, que foi conferir a mostra. ''As crianças têm muita imaginação. A infância delas é diferente da minha, que cresci na roça, mas o espírito é o mesmo'', comparou.
Uma das fontes de inspiração usadas para os trabalhos foi o livro de contos ''Tempo de Infância'', do londrinense Walter Ney. Na obra, o escritor conta suas próprias experiências de criança, como as brincadeiras e traquinagens. As crianças se identificaram com alguns relatos, e perceberam diferenças em outros. ''Tem uma parte em que ele sai correndo atrás de um carro para pegar ingressos de cinema. Eu só fui no cinema uma vez, porque minha mãe não tem muita condição de pagar'', justificou Gelson da Silva Gonçalves, 12 anos. Ontem de manhã, Ney visitou a exposição e ficou comovido. ''O livro tem rendido frutos legais, mas nada igual a isso. É o próprio retrato do mundo mágico da infância. Fiquei arrepiado'', revelou.

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