Exposição de fotografias para enfrentar o luto
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sexta-feira, 02 de novembro de 2018
Vítor Ogawa<br> Reportagem Local 
Jaguapitã - Cada um vivencia o luto de um jeito. Trata-se de uma experiência pessoal e única, e não existem fórmulas melhores ou piores para lidar com a perda. Em Jaguapitã (Região Metropolitana de Londrina), o advogado Abimael Baldani perdeu o filho Daniel Augusto em 2003, quando ele tinha apenas 19 anos. O estudante morreu em um acidente automobilístico e seu pai resolveu criar uma associação com o nome dele e realiza palestras de conscientização no trânsito, além de apoiar equipes de futebol amador. Para minimizar a dor, também começou a fazer exposições de fotos no cemitério de familiares que já se foram. "Eu sempre gostei de fotos. Eu não faço por vaidade pessoal. Eu sou saudosista", declarou o advogado, conhecido como Bima.

O ritual começou em 2005. No início da manhã do dia anterior ao Finados Baldani vai até o cemitério municipal, na companhia dos filhos e de alguns amigos, e começa a espalhar o material. "Levo cerca de duas horas para colocar todos." Com o tempo, além de fotos de familiares, passou a expor também imagens de amigos que havia perdido. "Pensei no que poderia ser feito para valorizar as pessoas com quem a gente teve amizade. A maioria das fotos é do arquivo pessoal. Têm muitos familiares que viram o que eu faço e passaram a me trazer fotos de parentes deles. Deve ter em torno de 60 banners que eu espalho pelo cemitério no Dia de Finados", destacou.
Em um diálogo entremeado por várias pausas devido a emoção, Baldani relembra do filho Daniel. "Ele era um menino que tinha muitas amizades em Jaguapitã. Estudava direito em Rolândia (RML), mas um dia ele estava em Astorga, em uma madrugada, quando sofreu o acidente. Ficou 10 dias na UTI e não resistiu. Ele era obediente e alegre", declarou. "Quem perdeu alguém sabe que a dor é intensa", afirmou, emocionado. "Quando penso nele, a primeira imagem que vem à cabeça é dele criança. Agora mesmo estava pegando uma encomenda de bebidas, quando surgiu uma criança de três anos e me veio a lembrança dele", relatou.
Além das fotos do filho, no jazigo da família ele colocou a foto da esposa, que morreu de câncer em 2010, da sua irmã e de seus pais. "Minha esposa Lenice foi uma grande pessoa, porque ela se dedicava demais aos filhos. Era exigente e rigorosa, mas devo muito a ela. Ela foi um exemplo de vida. Uma pessoa sensacional e que faz muita falta na minha vida", declarou.
A mensagem que o advogado quer passar ao fazer isso é que a pessoa pode morrer, mas nunca cai no esquecimento. "Elas não saem de nossa memória. Dessa forma procuro dizer que aquela pessoa foi importante para nossa convivência e tento transmitir isso para as pessoas", explicou.
PESSOAL ANTIGO
O engenheiro agrônomo George Matsuda, amigo de Bima, contou que costuma ficar vendo os banners no Dia de Finados. "Eu ia na fazenda e no sítio para jogar bola e é muito bom rever as fotos de algumas dessas pessoas. Acho legal, traz o passado de volta. A primeira vez que vi fiquei admirado e não sabia o porquê ele tinha colocado os banners. Aí fui vendo o pessoal antigo que estava sendo retratado e entendi. Achei muito legal o que o Bima fez", afirmou.
O agricultor Wanderley Donan também aprovou a iniciativa. "Conheci 90% dessas pessoas retratadas e isso faz a gente voltar no tempo. Temos saudade de certas pessoas, principalmente daqueles com as quais a gente jogou bola", apontou. Ele ressaltou que há jazigos que só possuem a lápide em uma placa, sem foto alguma. "Quando ele publica a fotografia traz a imagem daquela pessoa para a gente. Moro desde 1960 aqui no município e depois que o Bima começou a fazer isso, vi que têm outras pessoas que estão fazendo a mesma coisa. É uma iniciativa que valeu a pena", destacou.
"Tem bastante gente jovem, que faleceu em acidentes de trânsito", notou a recepcionista Elaine Cristina de Castro. Ela estava visitando o túmulo da avó e de sua mãe e enalteceu que a perda é algo difícil de se lidar. "Nada pode consolar a dor, infelizmente. É algo que você lembra todos os dias. No Dia de Finados a gente lembra que não é nada. A gente tem que pensar bem antes de dizer qualquer coisa e não humilhar ninguém", declarou.


