Gente de todas as classes sociais vai aos ‘‘cultos evangélicos de libertação’’ promovidos pela Igreja Deus é Amor, na região de Maringá. São pobres, classe média, ricos, católicos, ateus arrependidos e, claro, evangélicos. Nos cultos, há sessões de exorcismo. O pastor Lourival Souza, da Igreja Deus é Amor, define: ‘‘Participam todos os que têm medo da ira de Deus e pavor do diabo’’. Há dez dias, a Deus É Amor realizou um desses cultos numa de suas quatro igrejas da região, no Jardim Independência, em Sarandi (7 quilômetros a leste de Maringá).
As pessoas começam a chegar a partir das 19 horas ao galpão com 200 cadeiras (homens de um lado, mulheres do outro). O pastor Jair Pereira dá início ao culto fazendo inúmeras orações, invocando Deus e advertindo o diabo de que esta noite ele irá queimar no inferno. Tensos, os fiéis esperam a sua vez de ter o demônio expulso do corpo.
Pereira abre a Bíblia no livro de São Lucas:‘‘Eis que vos dou poder para pisar escorpiões e toda a força do mal. Toda a força do inimigo...Quem mais tem o diabo no corpo. Você aí? Pode chegar aqui na frente, não se envergonhe, não. Não se preocupe, porque se o demônio se manifestar ele vai ter de sair da sua vida.’’ Os fiéis aplaudem e gritam, todos falam ao mesmo tempo. ‘‘Glória a Deus!’’, gritam em coro. ‘‘Quem sentir tontura, uma coisa esquisita no corpo quando começarmos a orar, por favor, venha à frente’’, pede o pastor.
O pastor e seus obreiros nem chegam a conversar antes com as pessoas. Basta que elas digam que têm o diabo no corpo para que tenha início o ritual exorcista. Cercado pelos obreiros, o pastor Pereira coloca suavemente a mão sobre a cabeça do ‘‘possuído pelo demônio’’:
‘‘Vílson, levante as suas mãos, vamos orar todos, vai queimando, demônio, vai queimando.’’, reza o pastor aos gritos. O barulho dentro do galpão é ensurdecedor. Os presentes vão à loucura. Os braços se agitam.
Vílson debate-se, cai no chão, empurra os bancos, derruba cadeiras, sua boca fica torta. A gritaria continua, o pastor repete ‘‘Em nome do nosso senhor Jesus Cristo vai queimando, vai queimando... Se você está aqui, Satanás, você vai queimar, vai se mostrar, seu danado’’.
De repente, ao lado de Vílson, uma mulher começa a se debater e o processo se repete com quase todos que se encontram nas primeiras fileiras de cadeiras. ‘‘Sai do corpo dela, Satanás, sai daí, vai queimando’’, diz Pereira, que acompanha um por um os casos em que o demônio se manifesta.
De repente, a voz de alguém que parece estar sendo esganado sai da boca de Vílson. Os presentes acreditam que é a manifestação do demônio. O rapaz sente enjôos e vomita. Não pára.‘‘Olha ele aí, em nome de nosso senhor Jesus Cristo você vai deixar este corpo e queimar no inferno’’, grita Pereira. ‘‘Jesus disse, conhecereis a verdade e a verdade os libertarᒒ, repete ele. ‘‘Você que sente que tem um demônio te oprimindo venha aqui agora’’, pede o pastor. E as pessoas vão se acotovelando na frente.
Para surpresa dos que presenciam o culto pela primeira vez, o pastor conversa com o demônio:
‘‘Você se sente mal quando a gente ora?’’, pergunta Pereira.
‘‘Certo, sim, sinto arrepio, me sinto mal’’, responde uma voz grossa e enrolada que sai da boca de Vílson.
‘‘Sai daí, dá o fora, bicho mal, vai embora espírito do inferno, queima no inferno, sssshhhhhh’’, gritam os presentes.
‘‘Tá liberto, tá liberto em nome de Jesus, aleluia! Pode descansar, Vílson’’, diz o pastor. O rapaz toma um pouco de água e senta no banco.
‘‘Que é que você sentiu, Vílson, agora que você está bem?’’, pergunta Pereira ao rapaz.
‘‘Um pouco de dor de cabeça e de dor no estômago’’, responde Vílson.
Pastor: ‘‘Sentiu que estava gritando forte?’’, pergunta o pastor.
Vílson: ‘‘Nada, nada, só dor, e agora sinto o corpo mais leve’’.
Pastor:‘‘É que o fogo de Deus estava queimando o demônio, por isso você não se lembra de nada’’.
Assim, o ‘‘culto de libertação’’ entra pela madrugada.

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