Sobreviventes abandonados há anos em um território hostil marcado pela guerra declarada desde o início dos anos 2000 entre gangues rivais, 40 famílias da rua Pantanal, no Jardim Santiago (Zona Oeste de Londrina), estão prestes a enfrentarem um êxodo particular para outros bairros da cidade, caso vingue o projeto de lei que prevê a extinção do endereço onde vivem atualmente. Exaustos de contar seus mortos e feridos e desesperançosos com as medidas paliativas que fracassaram no combate aos conflitos entre grupos de criminosos, os moradores da rua e de bairros vizinhos agora erguem a voz em favor da iniciativa. Mas a derrubada das casas levanta uma nuvem de incerteza: a mudança de endereço de parte da população atingida será capaz de conter a violência patrocinada pelas gangues?
O vereador Sidney de Souza, autor do projeto de lei, está convencido de que a extinção da rua poderá inibir mais casos de ferimentos e mortes provocados pelas rixas entre a gangue, que conta com o apoio do grupo do Jardim Leste-Oeste, e sua rival baseada no Jardim Nossa Senhora da Paz. Os dois grupos são divididos apenas por um vale. ''O raciocínio é simplista: o local de acesso da violência você remove. Não temos outra saída. Quem é de um bairro rival não vai atravessar a cidade para matar lá do outro lado'', argumentou. ''Nossa proposta é cheque na mão, mudança no caminhão e a Prefeitura derrubando as casas e urbanizando o fundo de vale'', reforçou o vereador. O custo da desapropriação e indenização é estimado em cerca de R$ 400 mil. ''É pouco, se pensarmos em termos de valorização da vida, dos negócios e dos imóveis que hoje estão depreciados em 30%'', ressaltou o legislador.
A iniciativa, apontou Souza, foi sugerida pela própria comunidade da rua Pantanal, que hoje é alvo diuturno das balas disparadas por membros da gangue baseada no Jardim Nossa Senhora da Paz. O revide com a mesma intensidade. Um abaixo-assinado está correndo toda a circunvizinhança dos dois bairros e, segundo o vereador, já conta com mais de seis mil assinaturas. O próprio Conselho Comunitário de Segurança da Zona Oeste (Conseg-Oeste) é favorável ao projeto. ''Temos 100% de apoio. As listas estão em 48 pontos comerciais e em mais sete igrejas católicas e evangélicas. Os padres e pastores estão pedindo apoio até durante as missas e cultos''.
Já a promotora da Vara da Infância e Juventude, Édina Maria de Paula, acredita que ''violência não se resolve apenas com decreto nem com lei mas com políticas públicas de curto, médio e longo prazo''. Ela analisou que ''mais correto seria fazer a redenção daquele pessoal, levando saneamento básico, educação, cultura, emprego''. A promotora disse não entender as razões dessa questão explodir somente agora se o confronto entre gangues existe há vários anos e alertou que grupos rivais se enfrentam, e se fortalecem, em outras regiões como na Zona Leste (entre adolescentes do Conjunto Ernani Moura Lima e Jardim Califórnia).
O diretor interino do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator, Nilson Domingos, é outro que mantém a cautela em relação à amplitude do projeto de lei. Para ele, a desapropriação por si só não vai encerrar as diferenças entre as gangues. ''Isso pode dividir a rivalidade entre os grupos e contribuir para o surgimento de outros centros de disputa'', comentou. Ele fez coro com a promotora ao avisar que gangues de jovens não estão mais restritas à Zona Oeste. ''O caminho mais correto seria atuar no combate à criminalidade na região junto com um trabalho social mais aprofundado'', opinou Domingos.
Coordenadora do Projeto Murialdo (que assiste adolescentes em cumprimento de medidas sócio-educativas), Jaqueline Michali também não crê na eficácia integral do projeto de lei. ''Resolve em parte porque tira a comunidade da Pantanal do alvo. Mas isso não quer dizer que a rivalidade entre as gangues vai acabar. É mais fácil tirar o problema do que propor ações para assistir as famílias que moram ali'', comentou. Ela revelou que as gangues hoje matam em qualquer região. ''Basta que a pessoa tenha ligação com alguma das regiões em conflito'', afirmou.
Ela lamenta que todos estes moradores se transformaram em alvos potenciais das gangues, que atacam indistintamente tanto os diretamente envolvidos quanto os inocentes. ''Formaram-se grupos rivais e agora é um salve-se quem puder. Antigamente, os meninos sabiam o motivo das brigas e quem tinha começado. Hoje em dia, ninguém sabe mais porque estão brigando e todo mundo acaba sendo alvo''.

mockup