São Paulo - Sentada na frente da webcam, uma adolescente lê em voz alta a quantidade de pessoas que assistem ao vivo à transmissão: ''989, 994, 1.004!'' A menina adverte: ''Só vou deixar ela fazer se ficar acima de mil.'' O número se estabiliza e, de repente, uma outra menina aparece seminua num canto da tela, mostrando os seios enquanto dança funk em poses sensuais. A cena não é caso isolado no universo dos adolescentes brasileiros. A moda de se exibir em câmeras na internet vem crescendo.
O programa utilizado para as transmissões é o Twitcam - software integrado ao Twitter, no qual os usuários podem acompanhar o número de pessoas que assistem à transmissão e os comentários feitos na rede. Assim, a interação ocorre em tempo real - e não são raras as coações de conotação sexual mesmo quando os jovens do vídeo afirmam ter menos de 14 anos.
Na semana passada, um caso desse tipo teve repercussão nacional, mas é apenas a ponta do iceberg. Dois adolescentes gaúchos foram apreendidos após se masturbarem diante da câmera do computador. Os pais, que não sabiam de nada, ficaram boquiabertos. O Ministério Público Federal (MPF) prometeu ir atrás de todos que baixaram as imagens.
A situação é tão nova que as próprias autoridades não sabem como combatê-la. O MPF agiu no caso do Rio Grande do Sul por causa da repercussão, mas o próprio órgão reconheceu que não fazia ideia de que a prática fosse tão comum.
Para o delegado Marcelo Bórsio, do Grupo Especial de Combate aos Crimes de Ódio e à Pornografia Infantil na Internet da Polícia Federal, a ação das autoridades pode esbarrar na falta de definição do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) em relação aos crimes cibernéticos. Procurada desde quinta-feira, a Livestream - empresa responsável pelo Twitcam - não retornou aos contatos da reportagem.

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