Exército virou sinônimo de emprego
Rubens Burigo Neto
De Curitiba
Alexandre Gonçalves Lopes vai completar 18 anos de idade no próximo dia 7 e está consciente que precisa de um emprego para aumentar a renda da família de oito irmãos. Ao contrário dos mais de mil rapazes da mesma idade que vão mensalmente à agência de Curitiba do Sistema Nacional de Empregos (Sine) atrás de uma vaga no mercado de trabalho, Alexandre abandonou o sonho de ser jogador de futebol e decidiu seguir os passos do irmão: optou pelo Exército.
Meu irmão é cabo no 20º Batalhão de Infantaria Blindada (BIB) há 5 anos e a renda dele é a principal da casa desde que ele entrou no Exército, contou Alexandre, enquanto aguardava para fazer o alistamento numa ensolarada tarde de fevereiro, na 1ª Junta Militar de Curitiba. Ele já completou o ensino médio e acredita que, entrando para o Exército, vai poder estudar. Já preenchi várias fichas para tentar emprego como servente de pedreiro ou instalador elétrico, mas nunca consegui nada nos últimos meses, revela. Alexandre diz que a maioria dos amigos que passam as tardes jogando futebol nas quadras do velódromo do Jardim Botânico, perto de onde moram, apoia a decisão dele e pretendem imitá-lo.
Como Alexandre, Cristiano Estevão também não tem a menor intenção de fazer parte das estatísticas: em dezembro, 58 mil pessoas em idade economicamente ativa (entre 15 e 60 anos) estavam desempregas na região metropolitana de Curitiba revelou a pesquisa mensal de emprego do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). E Cristiano, que fez 18 anos no dia 11 de janeiro, também quer entrar no Exército para fortalecer a renda familiar.
Tenho um tio na Marinha e ele me incentivou a tentar o Exército porque é mais garantido, justificou o garoto que só trabalhou uma vez, como office-boy. Cristiano e Alexandre dizem não se importar com a perda de regalias da vida civil, em comparação com a rígida disciplina militar que podem enfrentar. Não curto sair à noite e não terei problemas em acordar cedo porque sempre estudei pela manhã, afirma Cristiano. ele é morador da Barreirinha, está na 7ª série e gosta de curtir o restante do dia andando de bicicleta.
Presidente das três juntas de alistamento de Curitiba há 17 anos, Antônio Fischer da Silva, confirma que desde a implantação do Real (julho de 1994) tem aumentado o número de jovens que optam pela caserna para trabalhar. Na próxima incorporação (quando as Forças Armadas definem quem vai prestar o serviço militar obrigatório) aproximadamente 600 jovens são voluntários. Ultimamente tenho recebido pais que chegam a chorar pedindo que o filho consiga entrar no Exército. A cada ano, informa Fischer, em média 20 mil rapazes se alistam em Curitiba. Eu sempre abro o jogo com os pais e os jovens. Faço questão de deixar bem claro que a vida no quartel é bem diferente da que imaginam, assegura.
O alerta não serviria para Jarbas Soares Augusto, 18 anos. Ele trabalhou como açougueiro em Paranavaí durante 3 anos e, relembra, ganhava até R$ 400,00 mensais. Apesar de ter sido dispensando na 2ª fase da seleção para o Exército no ano passado, Jarbas conta que veio para Curitiba atrás de estudo e da opção por um novo emprego nos quartéis. Fui convocado, acabei perdendo o emprego, mas pensava que conseguiria ir para um quartel e continuar ganhando a vida. Como na região só tinha Tiro de Guerra (quartéis onde os selecionados só se apresentam para a ordem unida às 7 horas) resolvi vir para a capital.





