Exclusão vira esperança na vila rural
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segunda-feira, 22 de junho de 1998
Da Redação 
Rose Aparecida dos Santos tem 27 anos e cinco filhos. A mais velha, Lilian, tem oito anos, a mesma idade com que a mãe começou a trabalhar como bóia-fria no corte de cana. Nos seus oito anos, olhos azuis e cabelos loiros, a filha é uma criança que ainda não dispensa o colo da mãe. E foi com Lilian no colo que Rose entrou na frente do governador Jaime Lerner no último domingo, interrompendo sua caminhada rápida pelo pátio do parque de Exposições de Campo Mourão.
Eu amo esse homem. Eu amo esse homem, disse ela repetidas vezes e em voz alta, com olhar fixo nas pessoas que cercavam Lerner. Em seguida, deu a filha ao governador. Foi a oportunidade para que ela, com os braços livres, abraçasse Lerner.
A ação espontânea de Rose é uma síntese do tipo de esperança que o programa das Vilas Rurais está despertando entre as pessoas beneficiadas. Com as Vilas Rurais, pela primeira vez na história do país o Estado leva assistência ao extrato mais marginalizado do setor rural, secularmente desasistido. Já são 17 mil famílias beneficiadas no Paraná. Para a ONU (Organização das Nações Unidas), as Vilas Rurais dão um exemplo ao mundo de fixação do homem no campo.
Sina Rose Aparecida mora numa das casas da Vila Rural Nova Ukrânia, em Apucarana, a primeira construída no Estado. Desde que se mudou para lá com os filhos e o marido, sua vida, diz ela, é radicalmente outra. A mais radical das mudanças foi se livrar de uma sina, um destino que persegue sua família há pelo menos duas gerações. Aos oito anos, quando foi apresentada ao facão de cortar cana, ela estava apenas seguindo o caminho que já era o de seus pais. Meu pai sempre foi bóia-fria. Eu e meus irmãos começamos cedo para ajudá-lo e à minha mãe.
Até ganhar sua própria casa, Rose Aparecida conta que morava na cidade em uma casa de três cômodos, que lhe consumia R$ 50 de aluguel. Hoje minha casa tem sete partes. Eu colho milho, feijão, mandioca, batata. Além de não comprar mais comida, eu vendo o que sobra, afirma ela, num português rude de quem não pôde estudar.
Rose estava em Campo Mourão para um encontro com outros 35 mil moradores das vilas. O governador foi até lá para assinar a ordem para início das obras da vila número 350, meta inicial do seu governo. Em seu discurso, o governador disse que uma das suas principais satisfações com os resultados do programa era saber que o destino dos filhos desses ex-bóias-frias vai ser melhor do que o de seus pais.
Rose concorda. Meus filhos vão estudar. Vão ser gente, disse ela. Outra vez no colo da mãe, a pequena Lilian parece não entender. Está mais preocupada em brincar com uma bola de borracha amarela que traz na mão.


