'Excluídos' conquistam a cidadania
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quarta-feira, 23 de dezembro de 1998
Francelino França e Lúcio Horta 
Trezentas e dez pessoas, entre trabalhadores rurais e indígenas, receberam no último sábado, em Londrina o certificado de equivalência do programa de alfabetização coordenado pelo Peri - Projeto Educação Reviver Indígena -, que abrange estudos de 5ª a 8ª série; e do Peart - Projeto de Educação do Assalariado Rural Temporário - que atende 1ª a 4ª série.
Um dos objetivos do projeto de alfabetização é discutir a cidadania. Isso muda a visão do trabalhador rural. Na dinâmica do curso há uma discussão sobre a realidade em que ele está inserido e ter o certificado de 1ª a 4ª série muda significativamente a vida do aluno. É um incentivo para que ele dê prosseguimento aos estudos. Esse é um sonho que a maioria teve e conseguiu conquistar, resume o coordenador geral do Peart, Francisco Moreno.
Moreno explica que os alunos do Peri recebem os monitores na reserva. Segundo ele, preservar a cultura indígena é ponto fundamental no projeto de alfabetização. Neste ano, índios das reservas Apucaraninha e Laranjinha conquistaram o certificado.
Dentro do cronograma do Peart, o curso de alfabetização tem duração de oito meses. Nosso objetivo é que o trabalhador rural tenha educação de qualidade, adquira condições de fazer uma análise da sociedade e do indivíduo como cidadão, considera Francisco Moreno. O Centro de Educação Aberta Continuada à Distância (Cead), entidade ligada à Universidade Estadual de Londrina (UEL), desenvolve e aplica os exames de equivalência, levando em consideração os conteúdos diferenciados ofertados aos alunos.
Padre Dirceu Luiz Fumagalli, presidente da Associação Projeto de Educação de Assalariado Rural Temporário (Apeart), comenta que o projeto começou em 1993, dentro da Pastoral da Terra, movimento organizado dentro da Igreja Católica. A idéia, segundo ele, era promover uma forma de aproximação junto às comunidades de trabalhadores rurais assalariados, para conhecer um pouco mais as suas necessidades e perspectivas. Depois disso, seria feito também um trabalho de organização a partir das bandeiras levantadas pelos próprios trabalhadores. A educação, então, era um chamariz, comenta.
Cinco anos depois, padre Dirceu observa que os resultados do trabalho são os mais positivos possíveis. O Peart já atendeu oito mil educandos nas regiões Norte, Noroeste e Centro do Estado. Somente este ano, concluíram o estudo de 1ª a 5ª série 2,7 mil trabalhadores. Conseguimos conhecer mais esse público proporcionar-lhes esse direito básico, que é a Educação, diz.
Apesar dos bons resultados, sobram dificuldades. Uma delas é cobrir a grande demanda - a estimativa é que hoje, no Paraná, o analfabetismo ainda atinja 700 mil trabalhadores rurais temporários. Outro problema é manter os convênios que possibilitam o funcionamento do Apeart, sobretudo com o Governo do Estado. Hoje, são 400 monitores trabalhando no projeto e 31 supervisores.
Padre Dirceu diz que a idéia para 99 era expandir o serviço, mas o Governo do Estado sugeriu um corte de 10% no funcionamento. Isso significa que 800 alunos deixarão de se formar. Ele destaca que o custo do aluno no Peart é a metade do programa Educação Solidária, do Governo Federal - R$ 18,00/mês contra R$ 34,00/mês. Apesar do custo menor, vamos ter que enxugar.


