Excesso de cursos é causa de erro médico, diz professor
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sexta-feira, 04 de abril de 1997
Lúcio Horta 
Dorico da SilvaImprensaBiancarelli: cuidado ao noticiar supostos errosUm dos temas mais esperados no 1º Encontro de Bioética, realizado ontem no Hospital Universitário (HU), foi a conferência Prevenção do Erro Médico, proferida pelo professor Irany Novah Moraes, autor do livro Erro Médico. Segundo ele, a noção de erro médico é abrangente e tem que ser analisada não só pelo ponto de vista do paciente mas também do próprio profissional.
Moraes observa que muitas vezes o paciente não obtém sucesso no tratamento e acaba culpando o médico. Mas quando há denúncia no Conselho de Medicina e dúvidas na avaliação do procedimento adotado durante o tratamento, o caso vai parar na Justiça. A Justiça é técnica: para considerar a possibilidade de erro médico tem que haver a vítima, o dano e o nexo de causa e efeito. Sem essas três coisas não há erro, explica.
A partir daí, diz Moraes, é possível investigar se houve (ou não) negligência - quando o procedimento é feito de forma irresponsável -, imperícia - quando o médico não está apto para determinado procedimento -, ou imprudência - a não observância das precauções mínimas na condução de um procedimento médico. Hoje, no Brasil, existem três médicos presos por erros crassos.
Moraes comenta que as causas da incidência do erro médico no Brasil podem ser encontradas, sobretudo, no grande número de escolas médicas existentes hoje. Essas escolas, segundo ele, estariam em número superior às reais necessidades e muitas vezes em condições precárias de funcionamento.
Dorico da SilvaEspecialistaMoraes: número excessivo de escolas médicas
Somente em 1967 foram abertas onze escolas médicas, mas sem formação de um bom corpo docente e boas condições, lembra. O professor aponta que dos 83 cursos de Medicina que estão hoje em funcionamento, metade não tem hospital próprio. Além do mais, ele diz, atualmente saem das escolas cerca de oito mil novos médicos para uma demanda de apenas de cinco mil.
Na conferência, Moraes destacou também que o melhor remédio para evitar eventuais erros durante um procedimento médico é o estudo constante. É preciso estudar muito, fazer especializações e também ter um bom relacionamento com o paciente. Isso é fundamental. O professor acrescentou que o médico precisa aprender a escrever com letra legível, para evitar confusão na hora de medicar o paciente.
A divulgação dos procedimentos médicos na imprensa também foi debatida ontem durante o Encontro de Bioética. O assunto ganhou força principamente depois da cobertura do caso da atriz e modelo Cláudia Liz, no final do ano passado. A modelo entrou em coma após complicações causadas por uma anestesia aplicada para uma cirurgia de lipoaspiração. Tanto a clínica quanto o anestesista responsáveis pela cirurgia foram tratados, por parte da imprensa, como responsáveis pelo acidente, o que não foi comprovado posteriormente.
O jornalista Aureliano Biancarelli, da Folha de São Paulo, falou sobre o assunto. Para ele, todo o cuidado é pouco na hora de divulgar uma denúncia, já que um erro de avaliação pode acabar injustamente com uma carreira profissional. Não se pode divulgar de qualquer jeito. A denúncia tem que estar fundamentada, no Conselho Regional de Medicina, e ainda assim é preciso preservar a vítima e o acusado. Mas muitas vezes a gente acaba atropelando, admite.
O caso de Cláudia Liz, segundo ele, foi um típico atropelo da imprensa. Naquela mesma noite em que a notícia saiu, o médico já foi acusado. E a clínica não se defendeu, criando um clima propício. Biancarelli observa, porém, que o cuidado com denúncias não se restringe ao erro médico, e cita como exemplo o caso da Escola Base, em São Paulo, quando os donos da escola foram acusados de violentar crianças. Mais tarde, depois que a escola foi depedrada e os donos condenados moralmente pela sociedade, foi provado que as denúncias eram infundadas e os acusados, inocentes.


