Cambé - Trincas, rachaduras, azulejos quebrados e 15 anos deixados para trás. Silvana da Silva Bonassa está entre as 12 famílias de Cambé (Região Metropolitana de Londrina) obrigadas a deixar as casas após uma avaliação feita por engenheiros da prefeitura e representantes da Defesa Civil. Segundo boletim divulgado pela Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil, 10.075 casas foram danificadas nas cidades de Londrina, Cambé, Rolândia e Arapongas, entre os dias 9 e 12 de janeiro. Em Cambé, 368 imóveis sofreram danos após as fortes chuvas. "Passo aqui todos os dias. É como se parte da gente tivesse morrido. Foram 15 anos de trabalho honesto e de muito esforço. Perder tudo assim é muito assustador", lamentou Silvana, ao andar pelo imóvel interditado. A residência no Jardim Boa Vista começou a trincar na noite da última segunda-feira. "Meus três filhos dormiram comigo e, na madrugada, ouvi as paredes estourarem igual pipoca. Quando amanheceu, a parede do meu quarto já estava com uma rachadura enorme. Tentei sair, mas a porta ficou emperrada. Demorei para conseguir", detalhou a moradora, emocionada ao relembrar a cena.
Com o piso desnivelado, algumas portas se fecham sozinhas. Após ser surpreendida pelos danos em toda a casa, Silvana seguiu com os filhos para um hotel. Na manhã seguinte, sem ter como pagar por mais diárias, a família retornou à casa do Jardim Boa Vista. Silvana dirige vans escolares e o marido trabalha com o transporte de cargas. "Fiquei em uma fila de espera na imobiliária. Consegui fazer a mudança na quinta-feira. Não tenho como pagar o aluguel. Não recebi nenhuma ajuda de órgão público. Se o dinheiro só vem para arrumar as pontes, será que o jeito é ficar embaixo de uma delas?", criticou.
No Jardim Ana Rosa, em Cambé, mais estragos foram constatados. "Ainda não calculei os prejuízos, mas tenho certeza que isso tudo não é só por causa da chuva", disse o vigia noturno Ailton Faltz, ao mostrar uma das paredes do quintal. Faltz acredita que tremores de terra podem ter ocasionado os danos. Após o temporal, surgiu um desnível entre a garagem e o quintal da residência. Na casa vizinha, rachaduras ao redor da janela, azulejos quebrados na cozinha e trincas nas paredes surpreenderam a agente de endemias Márcia Regina Miranda.
De acordo com o balanço atualizado da Defesa Civil de Cambé, 368 imóveis foram danificados. Até a manhã de ontem, 12 casas haviam sido interditadas. "Vistoriamos metade das casas. Estamos priorizando as situações mais urgentes. O conserto deve ser feito pelos moradores, já que a prefeitura e a Defesa Civil não podem destinar recursos públicos para imóveis particulares", frisou. Em Rolândia, mais de 9 mil casas foram danificadas. Desse total, 50 foram destruídas. Representantes da prefeitura negociam com a Caixa Econômica Federal a liberação de recursos do FGTS. Em Arapongas, 410 imóveis ficaram com a estrutura comprometida. O município deve atualizar os dados ao longo da semana. Em Londrina, mais de 500 casas foram danificadas na área urbana, seis delas permanecem interditadas.
O engenheiro civil geotécnico e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Carlos José da Costa Branco, explica que o aumento no volume de água diminui a resistência interna do solo e pode ocasionar danos nos imóveis. "A norma brasileira de fundações é precária quanto a construções em solos colapsíveis. Se levarmos em conta o solo, a fundação pode ter o dobro do valor. É preciso um estudo melhor sobre o assunto", comentou. Conforme ele, nos solos colapsíveis, em cada metro cúbico de partícula sólida há 66% de porosidade. "A impermeabilização de telhados e a falta de áreas verdes, por exemplo, faz com que a água penetre em poucas áreas e sobrecarregue o solo", lembrou.

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