Exame pode pôr fim
a angústia de mães
ReproduçãoGuilherme Caramês Tiburtius tinha oito anos quando desapareceu em CuritibaMarcelo AlmeidaMistérioA PM Eunice Bezerra Matozzo teme que o irmão Rubens esteja morto
James Alberti
Duas histórias de dor e angústia podem ter fim esta semana com um exame de DNA. A dona de casa Eliane Lima Gonçalves, 33 anos, vive dias de angústia e expectativa. Ela é mãe de Ewerton de Lima Gonçalves, que desapareceu em 23 de dezembro de 1988. A criança pode ser uma das duas que estão sob guarda de uma mulher, cujo nome não é divulgado pela polícia. O outro menino seria Rodrigo Novicki de Oliveira, que desapareceu em 11 de outubro de 1987.
Albari RosaArlete: lembranças do filho e luta na Câmara Federal‘‘A ansiedade é grande. O dia-a-dia gira em torno dele’’, conta Eliane. O delegado Harry Carlos Herbert, do Sicride, acredita que possa resolver os dois casos esta semana. Ele quer verificar se existe ligação genética entre a mulher e os dois meninos, de quem ela afirma ser a mãe biológica. ‘‘Caso não haja essa ligação, os casos de desaparecimento estão praticamente resolvidos’’, disse o delegado.
Eliane, que viu o menino na delegacia, disse ter ficado abalada porque ele tem características do seu filho, como uma cicatriz acima do olho direito.‘‘É desumano saber que ele está aqui e eu procurei tanto em outros lugares’’, afirma. A polícia e a própria Eliane acreditavam que a criança havia sido levada para a Alemanha. Para tentar encontrá-lo, ela trocou informações com oito mil pessoas na Alemanha e tem a correspondência arquivada.
Marcelo AlmeidaEliane Gonçalves, mãe de Ewerton: um exame de DNA pode acabar com o seu tormento esta semanaUm possível reencontro com Ewerton, que hoje teria 14 anos, provoca alegria e medo em Eliane. ‘‘Medo de que ele não me queria mais como mãe’’, revela. Se o exame confirmar que a criança é realmente filho da mulher que diz ser sua mãe, Eliane continuará seu calvário. ‘‘Uma mãe nunca deixa de procurar um filho desaparecido. Ele é meu e mesmo que eu esteja de bengala, vou continuar a busca’’, afirma.
A bancária Arlete Caramês Tiburtius tem os mesmos sentimentos. ‘‘Vou tentar de tudo, até as últimas consequências para encontrar o Guilherme’’, revela. ‘‘Fiz de tudo e fui a todos os lugares, mas tenho convicção de que vou encontrar ele vivo’’.
Arlete acredita que se o filho estivesse morto, a polícia já teria encontrado o corpo. Para não deixar o tempo acabar com as investigações e a esperança do reencontro, Arlete luta por uma vaga na Câmara Federal, onde irá lutar pela crianças desaparecidas, afirma. ‘‘A angústia é tão brutal que não consigo descrever. É muito triste’’, diz, chorando.
Albari RosaJoão e o retrato de Leandro: esperança e decepçãoO choro, explica Arlete, é por saber que perdeu o que talvez fosse a melhor fase do relacionamento entre mãe e filho. ‘‘Perdi essa idade bonita com ele. Perdi tudo. Nada compensa esse tempo’’. Guilherme Caramês Tiburtius tinha oito anos quando desapareceu.
João, incansável,
busca filho Leandro
Israel Reinstein
No dia 15 agosto, há exatamente dois anos, o pescador João Bossi pensou ter encontrado o seu filho, Leandro Bossi, desaparecido de Guaratuba em 15 de fevereiro de 92, quando tinha oito anos de idade. O menino teria sido encontrado em Manaus (AM), pela Polícia Militar, e até reconhecido por João. No entanto, o sonho do pescador caiu por terra quando se descobriu que a criança se chamava Diogo Moreira e sua mãe, Angela Moreira, vivia em Manaus. Diogo voltou para a mãe em 8 de outubro e, até hoje, João procura por seu filho.
O menino passou meses reconhecendo parentes que não tinha no Paraná, até que o exame de DNA comprovou que sua história era uma fraude. Antes disso, o presidente do Interbureau (entidade de que reúne detetives particulares), Walmir Battú, apresentou a mãe Angela Moreira. Morando em Itacoatiara (AM), Angela informou que seu filho havia fugido de casa e estava desaparecido.
A polícia do Paraná promoveu o encontro de Ângela e Diogo. O menino reconheceu a mãe, mas disse que queria morar com o pescador. Ângela, Diogo e João Bossi foram a Manaus para audiência com o juiz Antônio Celso Gióia. Gióia pediu acompanhamento E, em 8 de outubro, o juiz deu a guarda de Diogo à mãe.
Pais de Evandro já
não têm esperança
Ao contrário das famílias que ainda esperam reencontrar os filhos, Maria e Ademir Batista Caetano, pais do estudante Evandro, 7 anos, de Guaratuba, sentem no peito a dor de quem já não tem esperanças. ‘‘Seria melhor acreditar que ele está vivo, mas, infelizmente, eu sei que ele está morto’’, afirma Ademir Caetano, que reconheceu como sendo o de seu filho um corpo encontrado em 11 de abril de 1992. Evandro teria sido assassinado em um ritual de magia negra, no dia 6 de abril, quando desapareceu no caminho entre a escola e sua casa - uma distância de aproximadamente 100 metros -, por volta das 9 horas. O corpo foi encontrado mutilado num matagal próximo à casa da família da vítima e reconhecido por Caetano e outros familiares. Exames na arcada dentária e de DNA também teriam confirmado a identidade da criança.
O pai de Evandro diz que nunca teve dúvidas que seu filho está morto, contrariando afirmações da defesa de Celina e Beatriz Abagge, principais acusadas do crime. As duas foram inocentadas por um júri popular, mas o promotor Celso Ribas recorreu. ‘‘Se eu suspeitasse que ele pudesse estar vivo, não estaria lutando pela condenação dos acusados’’, afirma Caetano.
Ele conta que toda vez que o caso é remexido sente renovada a dor pela morte de Evandro. ‘‘É uma imagem que martiriza a cabeça da gente até hoje’’, revela. O pai diz que é impossível expressar a dor que sentiu no momento que reconheceu seu filho. ‘‘É só a gente que sabe o que sente na hora que vê o corpo’’.(J.A.)
Bezerra foi ao banco
e nunca mais voltou
A policial militar Eunice Bezerra Matozzo, 38 anos, carrega na bolsa a cédula de identidade do irmão Rubens dos Santos Bezerra, 50 anos, com a certeza que nunca mais o verá com vida. A fotografia do documento serviria então para amenizar a saudade de Bezerra, que está desaparecido há seis meses. Ele é uma das 74 pessoas desaparecidas em Curitiba desde o começo do ano.
No dia 7 de julho, Bezerra saiu de casa com um amigo para ir a um banco e nunca mais foi visto. O amigo retornou para o bairro um dia depois e disse que tinha se despedido de Bezerra em um terminal de ônibus. O que dá certeza a Eunice de que o irmão está morto é o fato de ele não ter se comunicado com a família desde então.
‘‘Ele nunca dormia fora de casa e sempre dizia aonde ia’’, diz Eunice. Ao contrário do que costumava fazer, no dia em que sumiu Bezerra saiu sem documentos e calçando chinelos. ‘‘Infelizmente eu não tenho esperanças de encontrá-lo vivo. Ele era um homem lúcido e inteligente. Não deixaria de dar notícia.’’
A angústia consome a família, segundo Eunice. Em junho, por exemplo, Eunice teve que mentir para sua mãe, Ninfa dos Santos, que completava 80 anos. Na festa do aniversário estavam presentes todos os filhos e netos, à exceção de Bezerra. Para preservar a mãe, Eunice disse que não havia encontrado o irmão em casa para convidá-lo para a festa.
De uma família católica, Eunice quer encontar o irmão para dar-lhe um enterro decente. ‘‘Ele não pode ficar desaparecido assim, como se não fosse um ser humano, sem nem sequer um atestado de óbito’’, diz. Hoje Eunice já não vai ao IML toda vez que chega um corpo nem verifica os manicômios, pois já foi em todos. Ela teme que o irmão possa ter sido assassinado e jogado em um terreno baldio, o que dificultaria sua localização. (J.A.)

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