Exame do Detran é arsenal de diversões
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de agosto de 1998
Israel Reinstein 
Distraído, um rapaz - candidato a motorista - resolveu acenar para uma pessoa que conhecia. Sem perceber o que estava fazendo, teve o carro da auto-escola abalroado por um caminhão, que transitava numa via rápida. Ninguém se feriu, mas o rapaz, que estava fazendo o exame prático do Departamento de Trânsito (Detran-PR), foi reprovado. Essa situação, que parece engraçada, aconteceu no ano passado com um examinador do Detran. E situações parecidas, mas com menores danos, surgem todo dia, quando saímos à rua para avaliar os futuros motoristas, diz Manoel Luiz Gallieri, que atua nesta função há oito anos.
Longe da imagem monstruosa que envolve os examinadores do Detran, Gallieri conta que sair com os candidatos é uma aventura diária. Ainda mais para quem enfrenta cerca de 24 viagens diárias. Tem de ter sangue frio para colocar a sua segurança na mão de uma pessoa que não se conhece, mas que se sabe ter grandes limitações, diz.
Como em cada dez candidatos quatro são reprovados, Gallieri acredita que o perigo ronda próximo. Mensalmente, alguns dos 5.600 examinados acabam no pára-choque de um carro vizinho. Tem candidato que arranca bruscamente, batendo antes mesmo de iniciar o teste, conta o examinador Larson Orlando. Mas nem tudo é tragédia, já que passamos por cada situação divertida, conta.
Larson lembra que há três meses perguntou ao examinado se ele não tinha lido o aviso que estava escrito no chão, que assinalava Pare. Rapidamente, ele olhou para o chão do carro e leu em voz alta o nome do jornal que forrava o carro, conta. Outra vez, um candidato que não conseguia trocar as marchas inventou uma teoria do câmbio frio, que não funcionava a baixa temperatura. Teve também um jovem que saiu do carro nervoso e voltou sozinho a pé, porque ficou ansioso demais para continuar o teste.
O verdadeiro inimigo do candidato é o medo, ressalta Larson. Manoel Gallieri diz que mesmo sabendo o bê-a-bá do bom motorista, os candidatos acabam esquecendo tudo por causa do sistema nervoso. Eles deixam de dar o sinal de pisca-pisca, cruzam a preferencial sem olhar para os lados, cometendo erros que terão que superar, pois vão enfrentá-los em condições estressantes em algum momento da vida, comenta.
Gallieri garante que só numa primeira olhada percebe quem não tem capacidade para ser aprovado. Observando a maneira de sentar e o jeito de segurar o volante, ele acerta com precisão quase milimétrica as possibilidades que a pessoa tem em conquistar a sua carteira. Candidato com ombros encolhidos, braços próximos do peito e bem junto ao volante geralmente acaba tendo mais dificuldade em passar no exame. Outros sinais bem visíveis são o tremor de pernas e mãos, destaca Gallieri.


