O sonho de ter uma família era sempre brilhante na mente do hoje cobrador de ônibus Lorival da Silva Ramos, 39 anos. A vida, no entanto, desviou seus caminhos e a esperança que ele mantinha desde a infância deu lugar ao pesadelo de viver enterrado num mundo de vícios e crimes a partir da adolescência. Era mais fuga do que ganância de ter o que não podia comprar. Mas a perda da mãe o fez voltar a perseguir o que realmente queria. Hoje, ele não tem muito mas tem tudo que precisa para ser feliz e fazer feliz quem está a seu lado.
Londrinense nascido e criado no Jardim Marabá (Zona Leste) com mais três irmãs, Ramos conta que se emocionava até quando se imaginava pertencente a uma família estável. ''Sempre quis ter uma família mas nem tudo é como a gente quer'', relembra, apontando que o alcoolismo do pai o fazia sofrer. Principalmente por causa das surras que a mãe levava quando o marido chegava bêbado em casa.
''Aos 13 anos, vi minha irmã morrer atropelada por um caminhão na BR-369'', continua. Com esta mesma idade tomou seu primeiro copo de bebida alcoólica, oferecido por um primo que havia acabado de sair da prisão. Em seguida veio o primeiro cigarro de maconha. Com 17 anos, conheceu a cocaína. Três anos mais tarde, para ficar entorpecido tomava medicamentos misturados com álcool. Também passou a traficar para conseguir bancar os vícios. ''De dia trabalhava e à noite vendia maconha e cocaína. Cheguei até ter segurança armado andando comigo'', confessa.
''Mas um dia a gente tem que parar. Se não pelo amor, pela dor.'' E assim aconteceu. Aos 21 anos de idade, com o pai já fora de casa e vivendo em uma casa no Conjunto Mister Thomas, onde mora até hoje, Ramos diz que num dado domingo sentiu uma coisa estranha e quis ficar em casa com a mãe. ''À noite dei um remédio para ela, fui dormir e na manhã seguinte estranhei que ela ainda não tinha acordado. Abri a porta do quarto e encontrei ela morta na cama. Tinha infartado.''
Diante da dor de ter perdido a mãe, ele passou a pensar em mudar de vida. ''Pedi a Deus que se Ele me ajudasse nunca mais entraria no vício de novo'', fala Lorival. Promessa que até hoje conseguiu cumprir. E se sente recompensado por isso. Recuperado, ele conheceu a esposa, Maria Aparecida, 43 anos, com que está casado há 16 anos. E há quatro anos nasceu o grande orgulho do casal: Giovana Vitória. Sem falsos moralismos, o cobrador ensina com poucas palavras que a solução para mudar de vida está dentro de cada um. ''Não precisa ter ou começar a seguir uma religião. Com força de vontade, qualquer pessoa consegue.''

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