Ex-traficante detalha mundo do crime
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de março de 1999
Paulo Ubiratan 
O desempregado José da Silva (nome fictício), 24 anos, morador em Londrina, fez parte da grande legião de vendedores de cocaína, crack e maconha na cidade e diz que hoje ganha muito mais, se estivesse trabalhando em um emprego formal. Ele garante que saiu deste comércio sujo.
José da Silva entrou no negócio das drogas após perder o emprego no final do ano em uma indústria londrinense. Estudou até a 8ª série em um colégio estadual e foi nesta mesma época que pela primeira vez conheceu maconha e crack. José da Silva chegou a usar tóxico, mas depois viu que era pura bobagem. Ele afirmou que somente no ano passado experimentou cocaína e não gostou por estar muito misturada. José da Silva sempre morou em um bairro considerado violento e seus amigos de infância é que comandam o tráfico no local. Por isto conseguiu entrar no esquema da venda de tóxico, tornando-se um aviãozinho (repassador da droga).
Folha de LondrinaComo você entrou na venda do tóxico?
José da SilvaEu conheci maconha e crack quando ainda estudava. Voltei ao mundo da droga quando fui despedido do emprego. Tive facilidade de me tornar um aviãozinho porque sou amigo da turma que comanda o tráfico na minha rua. Os caras me conhecem desde pequeno e muitos deles são até mais moços do que eu. Dava para ganhar uma nota, até mais de quatro salários mínimos por mês. Dava azar quando a polícia fazia batida. Aí a gente dava uma parada de uma semana e depois voltava a trabalhar.
FolhaEntão a polícia atrapalhava o negócio...
José da SilvaÀs vezes eles davam dura, mas era para receberem dinheirinho por fora. Eles ameaçavam a gente e ficava tudo numa boa. A maioria é honesta. Estes policiais dão pau e prendem mesmo...
FolhaVocê quer dizer que os policiais ganhavam dinheiro para facilitar o tráfico? Eram policiais civis ou policiais militares?
José da SilvaAlguns sim. Das duas polícias... Isto vai dar confusão se eu aprofundar muito...
FolhaNão vamos dar seu nome...
José da SilvaEstes caras (os policiais) são muito espertos e quando querem descobrem tudo... (sorriso). Uma vez eu estava cheirando crack e tive que pagar para não ir preso. Hoje larguei toda esta porcaria. FolhaPara que tipo de pessoa você vendia a droga?
José da SilvaA maioria chegava de carro, dando impressão que estavam bem de vida. Tinham muito dinheiro. Outros eram pobretões e viciados quase morrendo. Aquilo que me fez sair da venda...
FolhaÉ fácil sair do esquema da venda de droga?
José da SilvaDesde que a gente não denuncie para a polícia, fica tudo bem. Este negócio de venda de drogas nos bairros, parece até negócio de família honesta que explora lanchonete. Não existe problemas quando um parente deixa de trabalhar. O difícil é voltar a vender droga. A gente tem que esperar uma vaga, pois existem muitos querendo trabalhar. Só para entender: a maioria das mulheres que trabalhava como doméstica ou diarista trocou de profissão para vender drogas. É mais fácil e paga mais. Elas não precisam sair de casa para trabalhar. Ficam cuidando dos filhos e vendendo as drogas.
FolhaExiste briga entre pontos de droga em Londrina?
José da SilvaExiste respeito entre os pequenos distribuidores de droga. Mas quando um deles tenta invadir o bairro do outro pode até sair morte. Outra falta grave é não pagar a droga que consumiu. Ou fica trabalhando de graça até pagar a dívida ou morre...
FolhaO que você pode falar sobre os 300 quilos que a Polícia Federal de Londrina apreendeu na mansão de José Antonio Daher, o Zezo?
José da SilvaIsto é coisa de bacana. Eles nem foram escrachados com fotografia no jornal. Eles não deixam se fotografar e fica tudo por isto mesmo... Mas estes caras vendem o produto puro (cocaína) e ganham muito dinheiro. Nós aqui da periferia somos bagrinhos pequenos em relação a eles.
Este carregamento é muito grande e dava para abastecer Londrina inteira por mais de um mês (sorri). Principalmente se a coca fosse adulterada...
FolhaA grande quantidade de cocaína distribuída em Londrina é fornecida por traficantes londrinenses?
Posso garantir que a grande maioria da cocaína que vendemos por aqui é sobra de grandes carregamentos que partem para fora do País. Ninguém da turma teria dinheiro para ir buscar cocaína, crack e maconha fora do Brasil. Daí os bacanas fazem a distribuição em todos os bairros da cidade e o pessoal para ganhar mais dinheiro mistura bicarbonato, pó de mármore e até sal amargo (laxante) para vender aos trouxas. Eu vi a turma fazendo isto. A droga é vendida nos bairros em pequenas porções, dependendo da possibilidade financeira do comprador. O pagamento é feito à vista.


