‘‘Antigamente se fazia muito isso’’, admitiu Gevaldo Ramos dos Santos, 62 anos, tesoureiro afastado da Usina Central Paraná, de Porecatu. Santos está sendo acusado de crime de estelionato por José Aparecido da Silva, ex-funcionário da empresa. Segundo o autor da denúncia, Santos sacou o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) de uma conta no Banestado, no dia 1º de dezembro de 1988. O saque foi descoberto há dois meses pelo cunhado de Silva, Neldo Machado Goes, através de extrato bancário.
Conforme Santos, funcionário da usina há 46 anos, retirar dinheiro de FGTS de contas de ex-empregados era procedimento comum na empresa. ‘‘Os funcionários, quando se afastavam do trabalho, recebiam uma certa quantia em dinheiro, como se fosse um adiantamento do FGTS. Depois a empresa sacava o dinheiro da conta’’, afirmou Santos. O tesoureiro, afastado há dois anos por ‘‘problemas de saúde’’, afirmou ainda que ‘‘assinava cheques e sacava FGTS’’. Santos disse que ‘‘o dinheiro era repassado à empresa, que já havia antecipado o pagamento ao empregado’’. ‘‘Nunca fiquei com um centavo’’, assegurou.
De acordo com Santos, a quantia paga aos funcionários no ato da rescisão de contrato era menor do que o FGTS das contas. ‘‘Isso funciona como empréstimo a juros’’, comparou. O tesoureiro afastado informou que, ao receber a intimação para prestar depoimento, comunicou o fato à usina. ‘‘Eles (diretores) me disseram que eu poderia falar tudo’’. Segundo Santos, a empresa não colocou advogado à disposição. ‘‘Se não me derem cobertura não sei como vou fazer. Não tenho dinheiro para me defender’’, disse. Santos mora em uma casa modesta em Porecatu.
Santos acredita que o autor da denúncia contra ele está ‘‘dando uma de joão-sem-braço’’. ‘‘Ele (José Aparecido da Silva) recebeu um pouco de dinheiro quando saiu e agora acha que fez mau negócio. De qualquer forma isso é problema da empresa. Eu ainda estou lá dentro e fui vítima nessa história’’, reclamou. O tesoureiro afastado informou que foi ‘‘ameaçado por Goes, caso não devolvesse o dinheiro’’. ‘‘Devolver como? O dinheiro é da usina’’, garantiu.
Ainda conforme declarações de Santos, ‘‘as coisas eram diferentes no tempo dos Lunardelli, antigos proprietários da usina’’. A empresa, disse Santos, foi vendida para o Grupo Atalla, no início da década de 70, com bens materiais e capital humano. ‘‘Os funcionários foram mantidos’’, afirmou. ‘‘A usina foi negociada como boiada, com porteira fechada.’’ (M.B.)

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