O agricultor Edemar da Silva Moura, 42 anos, conhecido como ‘‘Gaiteiro’’, de Palmital (146 quilômetros a oeste de Guarapuava), disse ontem à Folha que saiu do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) por não concordar com os ‘‘desmandos’’ das lideranças. No final do mês passado ele formulou uma declaração em um cartório de Campo Mourão, denunciando ‘‘todos os atos ilegais’’ do MST, que vão desde o roubo de animais, insumos e eletrodomésticos das propriedades invadidas, envolvimento no assalto de bancos, compra de armas pesadas e assassinato dos sem-terra que não concordam com o rumo do movimento. ‘‘Na fazenda Chapadão tem mais de 12 corpos de sem-terra enterrados’’, garantiu.
Moura disse que estava ligando de Sorriso (MT), e que deixaria a cidade com a mulher o oito filhos ainda ontem ‘‘para fugir da perseguição do MST’’. Citando nomes e apelidos de vários líderes e coordenadores do movimento na região central do Estado, ele revelou como as invasões são programadas, como os animais e objetos são roubados e vendidos a intermediários, que os funcionários das propriedades são agredidos e que os líderes compram armas e acobertam assaltantes de bancos. ‘‘Na última invasão que participei os líderes estavam com carabinas e até uma metralhadora de mão’’, disse. Ele citou ainda que um homem conhecido por ‘‘Quati’’ e outro por Valdenir são os chefes da quadrilha que assalta bancos.
Os sem-terra, continua Moura, não deixam a polícia entrar nos acampamentos para esconder as armas e também os veículos usados por assaltantes de bancos da região. Ele citou três assaltos acobertados pelo MST na região de Palmital, todos confirmados pela polícia. ‘‘Boa parte do gado que é tirado das fazendas ocupadas vai para propriedades de gente ligada ao MST, como o Taborda e o Arlindo, e esse pessoal sabe que o gado é roubado’’, afirmou. ‘‘As mulheres dos acampamentos são de todos os homens porque um homem não pode ter uma mulher só para ele, tem que dividir’’.
Há nove anos no MST, Moura saiu da fazenda Jerusalém, em Palmital, junto com outro sem-terra, Valmir da Silva Moraes, 36 anos. ‘‘Nós dois não concordávamos com as coisas’’, disse. Segundo ele, o MST está fazendo o que quer na região. ‘‘Eles não têm medo de nada, pois ninguém tem coragem de mexer com eles. Governo tem medo, polícia tem medo e os federais têm medo’’, declarou.
O delegado de Palmital, Marcos Antonio dos Santos, disse que está ciente das denúncias, mas não tem como investigar sem um reforço no policiamento. ‘‘Somos em três policiais civis e 10 militares, e os sem-terra impedem a entrada de qualquer pessoa nos acampamentos’’, alegou.
A gerente do Sindicato Rural de Campo Mourão, Maria Cardoso de Oliveira, que disse à Folha que acompanhou a denúncia de Moura no cartório, e afirmou que o ex-sem-terra está mesmo ‘‘escondido nos fundões do Mato Grosso’’. ‘‘Ele está jurado de morte’’.
Ontem, no entanto, a Folha conseguiu falar com um comerciante de Palmital, que conhece Moura e viu ele na cidade no início da semana. Segundo o comerciante, que não quer ser identificado, Moura tem uma outra mulher em Palmital. A mulher também garantiu que ele está trabalhando ‘‘por 15 dias’’ em Campina da Lagoa, a 100 quilômetros de Campo Mourão. Ela confirmou que Moura já esteve num acampamento, mas não conhece nenhum nome citado por ele.
Nenhuma liderança do MST na região retornou as ligações da Folha.

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