Telma Elorza
De Londrina
O ex-sargento da Polícia Rodoviária, Braes Alves Dias, 48 anos, atualmente professor e comerciante em Londrina, procurou ontem a Folha e confirmou as declarações do ex-Policial Militar (PM) Carlos – nome fictício –, publicadas ontem, sobre o dia-a-dia estressante e violento na corporação. ‘‘Tem muito mais coisa além daquilo que ele falou. A situação dos policiais é mesmo terrível e eles não podem falar nada. Mesmo depois de sair da corporação, ainda é perigoso porque eles ficam de olho na gente. E se um policial da ativa se queixar é porque está desesperado’’, garantiu.
Dias trabalhou na PM de 1974 a 1990. Ontem, vários ex-PMs e policiais da ativa de todo o Paraná procuraram a Folha, por telefone e e-mail confirmando as denúncias de Carlos. Porém, ele foi o único que concordou em ser identificado. Os demais pediram sigilo temendo represálias.
O ex-sargento afirmou não temer represálias, embora diga ter sido praticamente obrigado a sair da corporação por não concordar com os métodos utilizados. ‘‘Eu sempre fui contra as coisas erradas e sempre coloquei minha opinião. E isto eles não admitem’’, comentou. Segundo ele, sua saída foi causada por cartas que encaminhou aos jornais comentando assuntos do cotidiano. ‘‘Eu fui sendo transferido de um posto a outro, cada vez mais longe, até minha vida se tornar um inferno e eu ter que pedir desligamento’’, lembrou.
Segundo o ex-sargento, no depoimento de Carlos, por esquecimento ou omissão, teria faltado falar sobre os desmandos e abusos de poder por parte dos oficiais. ‘‘Ele não disse, por exemplo, que as viaturas em serviço ficam à disposição de oficiais para levar as esposas e filhos ao cabeleireiro, à piscina, à faculdade, fazer serviços particulares, quando deveriam estar na ronda’’, afirmou. ‘‘O sargento do destacamento vai com a viatura resolver seus problemas e deixa a comunidade desguarnecida.’’
Braes Dias afirmou que é comum oficiais que fazem faculdade obrigar subordinados a datilografar trabalhos escolares ou fazer qualquer outra tarefa em seu lugar. ‘‘Eu mesmo fui submetido a isto’’, comentou. Segundo ele, os oficiais afirmam ser donos dos soldados. ‘‘Quando algum não vai com sua cara, pode contar que tem perseguição mesmo. Já vi soldado tendo que se ajoelhar – literalmente – na frente do oficial e pedir perdão. A humilhação é uma constante. Não é à toa que muitos PMs cometem suicídio’’, disse.
O outro ponto que Carlos não teria mencionado em seu relato, segundo Dias, é o tráfico de drogas por parte dos próprios soldados. ‘‘Os oficiais fingem que não sabem. Tudo o que acontece dentro do quartel é acobertado. Mas todos sabem, inclusive a Polícia Civil’’, disse. Para ele, quem mais sofre com toda esta situação são aqueles bons policiais, ‘‘os que suam a camisa e não entram no esquema’’.
De acordo com o ex-sargento, é possível que o comandante do batalhão saiba tudo o que acontece. ‘‘Mas pode ser que não o interesse mexer no vespeiro. Quando um tenente-coronel é designado para um posto, sabe que vai ficar por lá no máximo dois anos e quanto menos problemático for seu comando, melhor para ele. Qualquer coisinha reflete na sua carreira. Ou você pensa que o Comando do Policiamento do Interior (CPI) não está de olho agora em Londrina, depois destas matérias?’’, indagou.
As entrevistas com os ex-policiais fazem parte de uma série iniciada pela Folha na edição de terça, quando foi mostrado um estudo realizado por três professoras do departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A pesquisa foi feita durante quatro anos, com 180 policiais do 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina.
O estudo, coordenado por Mari Nilza de Barros e com a participação das psicólogas Solange Maria Beggeato Mezzaroba e Romilda Cordioli Santos, mostrou que os PMs vivem em um estado de constante estresse, o que pode desencadear a violência. Elas recomendaram a implantação urgente de um serviço de apoio psicológico para os PMs.

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