Londrina

Josoé de CarvalhoDeterminaçãoAparecido da Silva, que passou os últimos três anos na prisão por furto, com mercadorias que aprendeu a fazer na PEL: ‘Saí com vontade e vou vencer. Tenho uma filha e preciso dar um bom exemplo para ela’Recém-saído da prisão, Aparecido da Silva, 29 anos, está animado com a possibilidade de sustentar sua família com a profissão que aprendeu dentro da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), nos últimos três anos, em que esteve preso. Temente do preconceito dos empresários em admitir um ex-preso, Silva optou pelo artesanato. Em menos de um mês e contando com a ajuda da mãe e da própria filha de 9 anos, ele está confeccionando bonequinhas de porcelana, bichos de pelúcia, almofadas e sachês perfumados. ‘‘Saí com vontade e vou vencer. Tenho uma filha e preciso dar um bom exemplo para ela, depois de tudo’’, diz Silva.
Para facilitar a entrada de seus produtos no mercado, Silva procurou a Associação de Desenvolvimento da Indústria Informal de Londrina (Adiil). Mais que uma ajuda, a Adiil estuda a possibilidade de exportar os produtos de Silva para Portugal juntamente com peças de gesso de outro artesão. A estimativa da presidente da Adiil, Maria Aparecida Stanley, é que Silva consiga já nos primeiros meses de comercialização um lucro médio de R$ 500,00. A produção dele, segundo Maria Aparecida, tem boa saída. Ela afirma que, se a preferência do mercado mudar, Silva será estimulado a fazer outro tipo de artesanato.
Silva conta que já na PEL a produção de artesanato o ajudou bastante. A venda interna era pequena, segundo ele, mas suficiente para se manter na PEL. ‘‘Lá dentro a gente quer tudo o que não tem. Eu sempre conseguia uns R$ 20,00 para a compra de frutas e para as roupas. Entregava muitos coisas que fazia para a minha mãe. Ela vendia e ficava com o dinheiro para a casa.’’
Silva afirma que o medo de não conseguir emprego depois da cadeia resultou na produção de artesanato. ‘‘Eu sabia que quando saísse ia trabalhar em fundo de quintal, sem precisar ficar dando explicações nas empresas sobre a minha vida passada’’, diz. Na opinião dele, é ilusão achar que ao sair de um prisão, a pessoa vai conseguir emprego. ‘‘É mentira que não existe discriminação. Quem é que vai contratar um ex-ladrão?’’
A opção pelo trabalho autônomo também está relacionada com a intenção de Silva de se afastar de possíveis ‘‘más companhias’’. ‘‘Em casa fico longe de más influências. Tenho a cabeça feita para não errar de novo, mas nunca se sabe de que uma outra pessoa vai conseguir te convencer.’’
Na Adiil, Silva terá uma colaboração extra durante um ano. Segundo Maria Aparecida, a proposta tem a concordância de todos os outros 580 sócios da Adiil. Até que Silva consiga se estabelecer no mercado, ele não vai pagar a taxa de adesão à Adiil nem a mensalidade de associado. Além disso, os seus produtos serão vendidos no atacado pelo mesmo preço entregue na Adiil, para facilitar a entrada do material nas lojas. A Adiil também deve conseguir o barateamento da matéria-prima através do departamento de compras.
O apoio dado pela Adiil a Silva faz parte de uma proposta feita pela entidade, juntamente com a Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel) e Secretaria Municipal de Ação Social, no ano passado à PEL. A proposta, segundo Maria Aparecida Stanley, foi apresentada pela PEL à Secretaria Estadual de Segurança Pública mas ainda não houve resposta. ‘‘A intenção era comercializar os produtos feitos nas oficinas da PEL para que o detento tivesse mercado garantido ao sair da prisão’’, diz Maria Aparecida. ‘‘O lado financeiro é muito importante quando eles saem da cadeia. Não adianta o acompanhamento psicológico se a pessoa não tiver dinheiro no bolso.’’

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