Ex-PM revela atividade estressante e violenta
Telma Elorza
De Londrina
Tem um ditado que diz: se quer acabar com os bandidos, acabe com a polícia. O pior é que isto não está de todo errado. Quem faz esta afirmação categórica é alguém que viveu, por quase 10 anos, a realidade dentro de 5º Batalhão da Polícia Militar (5º BPM), em Londrina. Carlos (nome fictício) deixou, há poucos anos, a profissão por não aguentar mais a tensão e o estresse do serviço. Ontem, a Folha publicou entrevista com psicólogas de Londrina que fizeram um estudo de quatro anos entre 180 policiais militares da cidade sobre os fatores de estresse na profissão.
O ex-PM contou que, quando surgiu a oportunidade de outro emprego, não perdeu a chance. Mesmo assim, mantém contato com antigos colegas. E, segundo ele, pouca coisa mudou desde que saiu. O dia-a-dia na Polícia Militar pode causar um tremendo desequilíbrio emocional e psicológico. Somado ao fato de que praticamente qualquer um pode ser PM, eu já não sei se a polícia é solução ou problema, afirma.
Carlos diz conhecer profundamente a rotina estressante de conviver com o perigo sem oportunidade de dizer mais nada além de sim, senhor e não, senhor, para não desrespeitar a hierarquia militar. Quando se entra na profissão, a primeira coisa que dizem é que seu único direito é não ter direitos, comenta. De acordo com Carlos, o treinamento inicial aliás, o único a que os soldados são submetidos em toda a carreira é usado para incutir isto na cabeça de cada soldado. A gente passa seis meses aprendendo duas coisas: sobre armas, incluindo atirar, e sobre hierarquia. É o tempo todo martelando que você tem que cumprir ordens, você tem que obedecer, você tem que respeitar seu comandante no caso o cabo ou sargento, explica.
Segundo ele, o maior problema começa na seleção. Quando eu entrei na corporação, fiz provas escrita e física, fui selecionado e me chamaram. Mas eu nunca conversei com um psicólogo nem nada do tipo. Se fizeram este tipo de avaliação, nem fiquei sabendo. Mas acredito que não. Tive colegas que entraram comigo, e que ainda estão lá, que são alcoólatras e viciados em drogas. Neguinho que passa a folga inteira em um boteco e vai trabalhar bêbado, garante.
Carlos diz que na corporação os problemas maiores estão no que é chamado de praça do pré, que reúne os soldados, cabos e sargentos. É justamente este pessoal que tem contato com a população. E onde falta treinamento e apoio psicológico, explica. Segundo ele, muitas das coisas erradas que acontecem são abafadas na própria praça do pré. Os oficiais, na sua maioria, só ficam sabendo aquilo que chega através de relatórios, que não é nem um terço da realidade. O sargento, com toda certeza, geralmente sabe das coisas. Mas faz vista grossa ou porque é amigo ou porque está no esquema, aponta.
O ex-PM destaca que nenhum policial pode portar armas se não estiver em serviço. É totalmente irregular e quem for pego pode ser preso. Mas os caras justificam, dizendo que precisam se defender de bandidos que os estão ameaçando, e os superiores fazem vista grossa. Só que isto não existe. Quem anda armado nas horas de folga são os mais truculentos, os que usam a profissão para intimidar e tirar vantagens, ressalta.
Carlos critica também os oficiais que, segundo ele, ficam entrincheirados no quartel. A maioria não sai às ruas para não se envolver em confusões, que poderia ser anotado em sua ficha e atrasar a promoção. Ficam lá quietinhos, contando tempo para serem promovidos. Os que vão para rua geralmente são os idealistas, os que querem fazer bem-feito o serviço, afirma. Estes, são os que mais têm dialógo com seus comandados. Procuram facilitar nas escalas, aliviam como podem a tensão porque sabem como são as coisas, comenta.
No desempenho das atividades, Carlos causou a morte de uma pessoa. E ficou por isto mesmo. No outro dia teve apenas que preencher um relatório e voltar às suas atividades. Teve um IPM (Inquérito Policial Militar) em Curitiba e eu nem fui chamado, diz. Para ele, porém, a vida que tirou ficou marcada em sua memória, mesmo sabendo que era uma questão de matar ou morrer. Passei muito tempo sem dormir, ouvindo o grito que o cara deu quando acertei o tiro. Para minha sorte, matei um bandido, um fugitivo de uma prisão, com vários crimes nas costas. Mas, e se fosse um pai de família ou um moleque no seu primeiro assalto? Acho que eu enlouqueceria, reconhece.
Nem nesta hora o ex-PM obteve apoio psicológico. Lá, eles não querem nem saber se a pessoa está abalada. O único problema que eles admitem é problema físico. Não interessa se o cara está com problemas sérios em casa, tem que cumprir serviço, diz. É aí, segundo Carlos, que acontecem os problemas. O policial está tão nervoso que descarrega no primeiro que olhar torto para ele.
Segundo Carlos, este desinteresse por parte dos superiores para com seus subordinados gera também vários problemas. Você não sabe o que vai fazer no seu turno de 12, 24 ou 48 horas. Pode ter um turno tranquilo como pode ter um tiroteio. Então, para 50% dos caras que estão lá, se puder enrolar, enrola mesmo. Muitas vezes, evitam ser os primeiros a chegar no local do crime ou fazem de tudo para justificar o porquê de não atender a ocorrência, afirma. Um exemplo que cita é o dos carros furtados ou roubados que tenham seguro. Perguntar se tem seguro é a primeira coisa que fazem. Se tiver, ninguém vai atrás, preferem deixar a seguradora pagar. Para que ir atrás se o dono não vai ter prejuízo?, questiona.
De acordo com o ex-PM, nada disso aparece nas fichas de serviços dos PMs. Para alguém ter exclusão do quadro, é preciso ter aprontado muito, mas muita coisa mesmo, afirma. Segundo ele, todos os que entram para a Polícia Militar começam na categoria bom comportamento. Tudo o que ele faz é anotado ali, desde estar sem o quepe na presença de um oficial até quantas pessoas ele matou. Se as mortes ocorreram a serviço, porém, não influi, diz.
De acordo com ele, o comportamento pode cair ou subir de categorias. Se alguém recebe advertências, cai para insuficiente. Se aprontou demais, vai para mau comportamento. Mas até chegar aí, é preciso muita coisa. Aí, na próxima, ele é excluído, conta.
O contrário também é verdadeiro. Depois de algum tempo na categoria bom comportamento, o PM pode ser elevado para ótimo comportamento. Se depois de sete anos, nunca teve nenhuma advertência, aí é promovido para excelente comportamento. É preciso estar nesta faixa para poder fazer cursos que possam resultar em promoção, explica. De acordo com ele, a maioria, porém, não alcança esta faixa. Não vou dizer que são todos os que estão lá que são ruins. Tem muita gente boa interessada em trabalhar e cumprir seu dever. O problema é que, se no meio de 10 tem um ruim, isto reflete no resto do grupo, analisa.
Voltar à atividade de policial militar, para Carlos, nunca mais. Melhor coisa que fiz foi sair de lá, garante.





