Se há muito tempo você briga com a balança, não adianta ficar olhando para o fundo do prato vazio, esperando, com uma cirurgia de redução de estômago, entrar numa espécie de Shangri-lá dos ex-obesos mórbidos que, como nas lendas da cidade mitológica, teria um lago com poderes sobrenaturais, onde os gordinhos mergulhariam, saindo do outro lado magros, sem ter que fazer alguns sacrifícios.
Para os que ainda fazem parte do exército de 1 milhão de obesos no Brasil, a esperança de encontrar o ''céu na terra'' - como podemos traduzir o nome da lendária cidade - depois da cirurgia de estômago, precisa ser acompanhada de determinação e tratamento multidisciplinar, que inclui psicólogos, endocrinologistas e nutricionistas.
''Com a banalização do culto ao corpo perfeito, a cirurgia de redução de estômago aparece na cabeça das pessoas como se fosse uma fórmula de encontrar a felicidade na magreza. Apesar da operação proporcionar isso, de certa forma, o paciente deve estar preparado para enfrentar transformações e sacrifícios'', afirma a psicóloga Vânia Vargas, coordenadora do Programa de Psicologia no Acompanhamento à Obesidade Mórbida do Hospital Universitário de Londrina (HU), que acompanhou ontem, na Associação Vale das Acácias, um grupo de 38 pacientes da instituição hospitalar num dia de atividades e trocas de experiências.
Além de palestras com médicos, psicólogos e nutricionistas, os que ainda sonham com a Shangri-lá dos ex-obesos mórbidos, ouviram dos que já passaram pelo caminho das pedras, após a cirurgia de redução de estômago, relatos sobre a luta contra a obesidade.
Aos 13 anos, Eliane Moretim Maziero pesava 73 quilos. Com 20 anos, eram 120 quilos. Atualmente, aos 37 anos, o ponteiro da balança marca 180 quilos, distribuídos em 1,79 metros de altura.
Três etapas da vida da diarista, que há três anos espera pela cirurgia, que acredita poder realizar até o segundo semestre de 2006.
''Não vou falar que não tenho medo. É uma cirurgia de grande porte. Porém, eu estou determinada. Quero fazer essa operação porque creio que será uma porta que se abrirá para um novo horizonte'', exemplificou Eliane, revelando a dimensão do sonho de se tornar uma pessoa magra.
Com a cirurgia, essa mudança acontece quase que da noite para o dia.
A cozinheira Maria das Dores Oliveira Bernardo, 53 anos, sabe o que isso significa.
Um dia antes da cirurgia, Maria das Dores se via no espelho com 118 quilos. Quatro meses depois, a cozinheira já se admira com 82 quilos.
''Mudou tudo na minha vida. É um processo, desde a reeducação alimentar até as mudanças psicológicas'', compara Maria das Dores, que passou a comer em quantidades menores em intervalos de duas em duas horas.
''Hoje quase não como carne vermelha. Nas minhas refeições principais dou preferência às saladas, uma colher de arroz e outra de feijão. Antes de operar comia 100 gramas de arroz, uma concha de feijão, dois bifes ou duas coxas de galinha'', exemplifica a cozinheira.
No dia de atividades promovido pelo HU, os pacientes que já se submeteram ao procedimento cirúrgico prepararam até um almoço com a dieta ''magra'' para os que aguardam pela operação - uma maneira quase que didática de ensinarem aos futuros ex-obesos o caminho para a vitória, após a cirurgia.
O hospital começou a realizar a cirurgia eletiva de redução de estômago em 1997. Cerca de 300 pacientes estão na lista de espera, que demora de três a seis anos para agendar o procedimento.
São considerados obesos mórbidos, os que ao dividirem o peso em quilos pela altura ao quadrado encontram um Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 40 acima de seu peso ideal.
Nos Estados Unidos, 61% da população adulta são obesos, número que chega a 15% entre as crianças norte-americanas.
A operação pode carimbar o passaporte para o Shangri-lá dos ex-obesos, mas para desfrutar dessa nova vida, os pacientes precisam se livrar de pesos extras.
''Pessoas que passam por uma cirurgia de redução de estômago e que não têm acompanhamento psicológico e de nutricionista não sabem lidar com a alimentação e passam a buscar recursos para compensar o sentimento de satisfação'', destaca a psicóloga Vânia Vargas, citando que o alcoolismo, a compulsão sexual ou por compras podem aparecer para preencher o vazio, que não é somente no estômago, mas que tem componentes emocionais.
''A cirurgia poderá ser um benefício grande se o paciente fizer dela uma oportunidade para mudar de vida e, a partir do impulso de emagrecer, realizar uma mudança geral. Existe uma ilusão grande entre os que esperam pela cirurgia e acreditam que após o procedimento nunca mais precisarão se preocupar com a alimentação. Não é verdade. Os operados precisam escolher bem os alimentos para evitar complicações nutricionais. Às vezes, as pessoas operam e ainda continuam com o mesmo pensamento de antes'', completa a psicóloga, ao destacar que o caminho para a felicidade pode precisar passar pelo sacrifício.

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