Ex-moradoras retomam vida e trabalho
Curitiba - ''Pelo o que eu passei, pelo meu casamento, eu tenho alguns pânicos. Só de perceber alguém me olhando, quando estou escrevendo, começo a tremer''. O relato é Juliana, 27 anos, ex-moradora da casa-abrigo, mãe de três filhos e grávida de cinco meses. Foi casada durante nove anos. O marido, João, ficou obcecado pela mulher. Ela não podia sair de casa sozinha. Quando ia trabalhar, Juliana tinha que andar de cabeça baixa. Não podia pensar em passar batom ou arrumar o cabelo. Para ele, isso representava que a mulher estaria ''se oferecendo'' para outros homens. Ele a deixava na porta do trabalho e na hora da saída João já estava lá. ''Eu só podia trabalhar se fosse dessa maneira'', explica.
Durante o dia, enquanto Juliana limpava a casa da patroa, o marido passava de carro pela frente do prédio para ver se a mulher não estava passeando pela vizinhança.
Um dia, Juliana foi até o carro pegar a Bíblia e achou cartas de amor no porta-luvas. O marido chorou, explicou que ele havia escrito e que ela não deveria falar em separação, senão ele ficaria louco. Nem foi preciso agilizar a papelada para ele virar outra pessoa. No mesmo dia, ele segurou Juliana pelo cabelo e deu umas ''bofetadas''. ''Ele mandou eu sair do emprego e disse que iria fazer uma lista de pessoas que atrapalhavam nosso casamento'', conta. O agressor começou a dormir com um facão embaixo do travesseiro. ''Ele olhava para mim, arregalava os olhos e dizia que sabia qual era meu ponto fraco: eu tinha medo de apanhar''. Juliana ainda chora ao lembrar disso.
Em alguns momentos o marido melhorava, mas quando ela descobriu que João tinha uma amante, a vida piorou de vez. ''Ele tentou me trancar em casa e disse que se eu não largasse o emprego ia me matar''. Foi quando a patroa de Juliana a levou até uma delegacia para fazer um Boletim de Ocorrência. Em seguida, ela e os filhos foram encaminhados para a casa-abrigo. Hoje, João mora com a amante, e Juliana, com a irmã. ''Eu adorei viver aqui (casa-abrigo). Fiz amigas. Vivi nove anos de tortura sentimental. Quando ele soube que eu estava em uma casa protegida, não perguntou das crianças. Só queria saber se tinha algum homem por aqui''.
A história de Andréia, 22 anos, é um pouco diferente. Usuária de drogas desde pequena, morou na rua durante oito anos. Somente parou com o vício após ficar grávida do primeiro filho. Mas isso não foi fácil, já que o marido incentivava o uso de crack e maconha e esse foi o motivo para ela deixá-lo e mudar-se para a casa-abrigo. Hoje, Andréia está casada com outro homem e tem mais um filho, de três meses. A vida mudou muito; os dois estão empregados. ''Me sinto uma vitoriosa'', orgulha-se. O ex-marido está preso. (D.C.)





