Dimitri do Valle
De Curitiba
‘‘Histórias de nossas vidas’’ foi apresentado ontem na UFPR, e traz relatos de 20 garotos que viveram nas ruas de Curitiba
O livro ‘‘Histórias de nossas vidas’’ foi lançado ontem à noite na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, em clima de vitória. Os autores da façanha foram 20 ex-meninos de rua da Fundação Educacional Profeta Elias, de Mandirituba, Região Metropolitana de Curitiba. Além de escritores que expressaram a dura rotina de um menor abandonado em Curitiba, os garotos transmitiram para professores e estudantes, através de uma peça de teatro, uma meta atingida ao longo de muitos anos de esforço pessoal: rua nunca mais.
Adriano Bueno de Andrade, 16 anos, é um desses exemplos. Mora na chácara da fundação há cinco anos. No passado, furtava para consumir maconha e cola. Hoje, o seu vício é outro: jogar futebol. Adriano quer brilhar nos gramados brasileiros. A chácara é uma fonte de inspiração para conquistar o sonho. ‘‘Lá você tem liberdade. Pode fazer o que quiser’’, comemora.
O educador Raul Correia afirma que encontrar nas ruas anseios parecidos com os de Adriano são cada vez mais raros. ‘‘Antigamente eles eram muito mais alegres. Essas apologias feitas a gangues hoje reforçam a violência. É muita porcaria na sociedade que mata os sonhos destes meninos’’, analisa Correia, que trabalha há 11 anos com meninos e meninas de rua. Experiência parecida está sendo compartilhada com Adilson Pereira de Souza, 21 anos. Ex-menino de rua, dos 7 aos 15 anos, Adilson é agora um educador que tenta afastar outros que eram como ele da violência da cidade grande.
‘‘Tinha noites de insônia. A gente não sabia o que podia acontecer’’, recorda Adilson, que assaltou com faca e revólver para sustentar a dependência que as drogas provocavam. Suas armas hoje são diferentes. Adilson utiliza da palavra para persuadir os meninos a irem morar na chácara. Até a próxima semana, ele deve ser responsável pela chegada de seis meninos com quem mantinha contato. ‘‘Os meninos querem um lar, alguém que acredite e fale com eles’’, observa.
A professora da UFPR, Sônia Guariza Miranda, avalia que o ‘‘grande mérito do projeto da chácara é fazer com que o menino se convença a sair da rua’’. Sônia e a professora Tânia Stoltz lançaram outro livro ontem à noite junto com ‘‘História de nossas vidas’’. Com o título ‘‘A rua na vida e a vida na rua’’, o trabalho das professoras conta a metodologia aplicada pelos voluntários da chácara para incentivar os meninos a reencontrarem-se com a família, ter um trabalho e conhecimento através dos estudos.

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