Aonde vai com os filhos, a manicure Marlene José da Paz, 36 anos, de Umuarama, causa espanto e admiração. Ela é mãe adotiva de um menino e duas adolescentes deficientes físicos e mentais: Luis Marcos do Nascimento, 6 anos, Cristiane Aparecida Miguel, 14 anos, e Ana Paula Priscila da Silva, 22 anos. Marlene adotou os três há pouco menos de 5 anos, consciente de que se tratavam de crianças especiais. O mais surpreendente é que ela e o marido são pobres e Marlene tem problemas de saúde decorrentes da obesidade (ela pesa mais de 130 quilos). Mesmo assim, assumiu o desafio e garantiu um lar para as três crianças abandonadas por suas famílias.
Marlene é considerada um caso raro entre as Varas da Infância e Juventude do Paraná. A maioria absoluta dos casais inscritos para adoção quer recém-nascidos ou crianças com no máximo 2 anos, sem problemas físicos ou mentais. Se já é difícil conseguir famílias para crianças maiores, para deficientes é quase impossível. Marlene ficou com três. ‘‘Essa mulher merece um prêmio’’, diz a juíza da Vara da Infância e Juventude, Zilda Romero.
Casada há 17 anos com o servente Edgar Felix Pinto, 57 anos, Marlene fez muitas tentativas para engravidar. Depois, passou a alimentar a vontade de adotar, mas achava que não conseguiria por ser pobre e sequer se inscreveu para adoção. Em 1996, ficou sabendo que o Juizado da Infância e Juventude procurava uma família para Cristiane. Ela e o marido nem quiseram saber detalhes da deficiência da menina. Aceitaram ficar com ela, sem nem conhecê-la.
Cristiane tem paralisia cerebral grave e precisa dos mesmos cuidados de um bebê. Filha de bóias-frias de Maria Helena (22 km a nordeste de Umuarama), a menina foi abandonada aos 2 anos e passou a viver em abrigos, nenhum apropriado para ela. Tem bronquite crônica e passava a maior parte do tempo internada em hospitais. Os médicos lhe deram no máximo 12 anos de vida. Ela não só ultrapassou a expectativa de vida, como melhorou muito depois que ganhou uma família. ‘‘Nos últimos dois anos, minha filha não foi internada nenhuma vez’’, orgulha-se Marlene.
Ana Paula chegou um ano depois. Tem 22 anos, mas sua idade mental equivale a de uma criança de 5 anos. Seus pais são desconhecidos. Ana Paula foi criada no Lar Rotary e quando as irmãs fecharam o lar, em 1997, Marlene quis ficar com ela. É a mais independente dos três e ajuda a cuidar dos irmãos. O caçula da família, Luiz Marcos, também é portador de paralisia cerebral, porém menos severa que a de Cristiane. Come sozinho, está aprendendo a falar e caminha amparado. Faz parte da família há dois anos.
Filho de uma bóia-fria alcoólatra de Serra dos Dourados (distrito de Umuarama), Luiz Marcos foi doado para vizinhos que também não tinham nenhuma condição de cuidar dele. Acabou recolhido pelo Juizado e cadastrado no Seja, órgão do Tribunal de Justiça que intermedia adoções internacionais. O menino ficou quase 3 anos num abrigo provisório, mas não apareceu nenhuma família interessada em adotá-lo. Marlene aceitou cuidar dele também.
A família mora numa casa alugada no Bairro Guarani e sobrevive do salário de Edgar (R$ 240) e da pensão de um salário mínimo que cada uma das meninas recebe do INSS por invalidez. Também recebe doações de alimentos de rotarianas e de uma empresa. Apesar dos problemas de coluna causados pela obesidade, Marlene cuida sozinha dos filhos e os carrega no colo e um lado para outro. Não tem carrinho, nem cadeira de rodas para transportar Cristiane e Luiz Marcos. Três vezes por semana, as crianças fazem fisioterapia e outras atividades na Universidade Paranaense (Unipar). ‘‘Nem o motorista da Kombi ajuda a embarcar e desembarcar as crianças’’, reclama.
Ela fala com bom humor do preconceito e da discriminação que ela e os filhos sofrem. Teve de abandonar a profissão de manicure, que exercia em casa, porque as clientes pararam de procurá-la. Agora faz bordados para reforçar a renda doméstica. Também percebeu que todo mundo evita comer na casa dela. ‘‘Só pode ser por nojo, porque sabem que a Cristiane e o Luiz Marcos fazem as necessidades na roupa e sou eu que lavo’’, diz rindo.
Algumas pessoas já a pararam na rua para perguntar o que a levou a assumir ‘‘aquela cruz’’. Marlene e Edgar detêm a guarda das crianças, mas querem adotá-los legalmente, se a Justiça permitir.

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