Ex-interno da Febem chora em educandário
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quarta-feira, 18 de julho de 2001
Edna Mendes De Londrina 
O sargento da Aeronáutica e ex-interno da Febem, Carlos Roberto dos Santos, 41 anos, o Carlinhos Pró-Menor, especialista em recuperação de menores infratores, disse ontem em Londrina que o modelo adotado no País para recuperação de menores infratores não resgata os jovens enquanto as grades não forem abolidas do sistema. Ele visitou o Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi).
Carlinhos se emocionou e chorou. Veio todo o passado na minha cabeça, inclusive as grades, as drogas e a falta de esperança. Isso me assusta. É triste ver que nada mudou em tantos anos, afirmou. Ele destacou que enquanto o Estado não investir realmente em educação e não descentralizar o atendimento a menores infratores, o sistema de recuperação não vai funcionar. O que é feito não recupera ninguém. Pelo contrário...
A trajetória de Carlinhos é marcada por abandono já nos primeiros anos de vida. A mãe morreu e o pai o deixou com uma vizinha numa das favelas mais violentas do Rio de Janeiro. Usou a desculpa de que iria resolver um problema e voltaria em seguida. Nunca mais retornou. A vizinha o entregou à Febem. Ontem, Carlinhos contou a história de sua vida aos 30 internos do Ciaadi. Qualquer um pode deixar essa vida. É só estudar. Se eu consegui chegar até aqui, qualquer um consegue, declarou aos internos.
J.B., 17 anos, que está internado no Ciaadi há cerca de um mês acusado de assalto, disse que a história de Carlinhos é um exemplo a ser seguido. Vale muito para nós que estamos aqui e não temos muita expectativa de dias melhores. Quero ser como ele, disse. J.B. acredita que o sistema de recuperação pode modificar sua vida.
Ao contrário dele, o adolescente W.F, 17 anos, que já tem mais de cinco passagens pelo Ciaadi declarou que os centros de recuperação incentivam ainda mais a reincidência ao crime. Isso só faz a gente querer ser mais infrator ainda. Quando sair daqui sei que vou voltar a roubar e assaltar, afirmou.
Carlinhos também é fundador da organização não governamental Pró-Menor, que atende 12 mil jovens em 18 estados. A Ong funciona dentro dos quartéis das Forças Armadas, com assistência a menores infratores e encaminhamento ao trabalho. Carlinhos está em negociações com o governo estadual para instalar o projeto no Paraná.
No final da tarde de ontem, Carlinhos lançou na Biblioteca Municipal de Londrina seu livro O menor que se fez maior, que conta sua trajetória até os 17 anos. Com mais de 300 mil exemplares vendidos no Brasil e Europa, a publicação é voltada ao público jovem e vem sendo adotada como material didático nas escolas.


