O sargento da Aeronáutica e ex-interno da Febem, Carlos Roberto dos Santos, 41 anos, o ‘‘Carlinhos Pró-Menor’’, especialista em recuperação de menores infratores, disse ontem em Londrina que o modelo adotado no País para recuperação de menores infratores não resgata os jovens enquanto ‘‘as grades’’ não forem abolidas do sistema. Ele visitou o Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi).
Carlinhos se emocionou e chorou. ‘‘Veio todo o passado na minha cabeça, inclusive as grades, as drogas e a falta de esperança. Isso me assusta. É triste ver que nada mudou em tantos anos’’, afirmou. Ele destacou que enquanto o Estado não investir realmente em educação e não descentralizar o atendimento a menores infratores, o sistema de recuperação não vai funcionar. ‘‘O que é feito não recupera ninguém. Pelo contrário...’’
A trajetória de Carlinhos é marcada por abandono já nos primeiros anos de vida. A mãe morreu e o pai o deixou com uma vizinha numa das favelas mais violentas do Rio de Janeiro. Usou a desculpa de que iria resolver um problema e voltaria em seguida. Nunca mais retornou. A vizinha o entregou à Febem. Ontem, Carlinhos contou a história de sua vida aos 30 internos do Ciaadi. ‘‘Qualquer um pode deixar essa vida. É só estudar. Se eu consegui chegar até aqui, qualquer um consegue’’, declarou aos internos.
J.B., 17 anos, que está internado no Ciaadi há cerca de um mês acusado de assalto, disse que a história de Carlinhos é um exemplo a ser seguido. ‘‘Vale muito para nós que estamos aqui e não temos muita expectativa de dias melhores. Quero ser como ele’’, disse. J.B. acredita que o sistema de recuperação pode modificar sua vida.
Ao contrário dele, o adolescente W.F, 17 anos, que já tem mais de cinco passagens pelo Ciaadi declarou que os centros de recuperação incentivam ainda mais a reincidência ao crime. ‘‘Isso só faz a gente querer ser mais infrator ainda. Quando sair daqui sei que vou voltar a roubar e assaltar’’, afirmou.
Carlinhos também é fundador da organização não governamental ‘‘Pró-Menor’’, que atende 12 mil jovens em 18 estados. A Ong funciona dentro dos quartéis das Forças Armadas, com assistência a menores infratores e encaminhamento ao trabalho. Carlinhos está em negociações com o governo estadual para instalar o projeto no Paraná.
No final da tarde de ontem, Carlinhos lançou na Biblioteca Municipal de Londrina seu livro ‘‘O menor que se fez maior’’, que conta sua trajetória até os 17 anos. Com mais de 300 mil exemplares vendidos no Brasil e Europa, a publicação é voltada ao público jovem e vem sendo adotada como material didático nas escolas.

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