Sid Sauer
De Campo Mourão
Quase dois anos depois de iniciar um projeto de desfavelamento em Campo Mourão, a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) tem outro desafio: conter a inadimplência nos conjuntos que abrigam os ex-favelados. No Conjunto Condor, com 60 casas, por exemplo, entregue em dezembro de 1998, 63,3% dos mutuários estão com pelo menos três prestações atrasadas. A inadimplência média na Cohapar é de 20%.
‘‘A falta de pagamento das prestações no desfavelamento é muito alta’’, admite o chefe do escritório regional da Cohapar em Campo Mourão, Sebastião Carlos Mauro. A companhia ainda não tem dados exatos da inadimplência no segundo conjunto destinado a favelados – Moradias Pinheirais –, mas já sabe que a falta de pagamento das prestações também é alta. A preocupação aumenta porque nos primeiros dois anos as parcelas são subsidiadas.
Nos dois conjuntos de Campo Mourão, as prestações variam de R$ 14,00 a R$ 37,00, de acordo com a renda familiar. Quando o subsídio chegar ao fim, porém, a prestação mínima será de R$ 37,00. O prazo vence primeiro, em junho de 2000, no Condor. Para tentar amenizar a situação, a prefeitura de Campo Mourão vem mantendo frentes de trabalho para mutuários com prestações em atraso, mas ela não consegue absorver toda a mão-de-obra disponível.
‘‘Estou em dia com as prestações, mas estou tirando da boca’’, diz o aposentado José Eva, 67 anos, que vive com a mulher, Idalina, 56. ‘‘Não sobra para comer’’. Além da prestação de R$ 14,00, ele conta que gasta todos os meses R$ 20,00 de água, R$ 10,00 de luz, R$ 16,00 de gás de cozinha e pelo menos R$ 30,00 em remédios. ‘‘Não sobra nem para comprar uma camisa. A gente paga a Cohapar para não passar vergonha, mas passa fome’’, lamenta.
A dona de casa Antônia Boaventura, 54 anos, também vem conseguindo manter as prestações em dia. ‘‘Pagamos no apuro’’, diz. ‘‘Estava melhor na favela’’. Antônia vive da aposentadoria de R$ 136,00 do marido. Outro que afirma ter saudades da favela é o também aposentado José Severino dos Santos, 50. ‘‘Na favela pelo menos eu não pagava nada. Nem prestação, nem conta de água’’, explica.
Severino mora no Moradias Pinheirais e até agora só pagou a primeira das quatro prestações de R$ 18,00 que recebeu. Ele também está com a conta de água atrasada há dois meses, numa dívida de R$ 46,00. ‘‘Se eu pudesse, eu pagava’’, diz. Segundo a Sanepar, nos dois conjuntos existem 10 casas com o fornecimento de água cortado e outras 18 têm duas prestações em atraso, mas o fornecimento é mantido através de negociações com a empresa.
O desempregado Sebastião Soares dos Santos, 30 anos, é um dos moradores do Conjunto Condor que está sem água. O fornecimento foi cortado há três meses por falta de pagamento. ‘‘Como é que eu vou pagar a conta se não tenho emprego?’’, questiona. Santos mora com a mulher e com dois filhos pequenos. A mulher dele empresta água dos vizinhos. ‘‘Estou vendendo minha mobilete por R$ 500,00 para ver se acerto pelo menos parte das dívidas’’.Em um dos dois conjuntos de casas construídas para famílias que moravam em favelas, 63% estão com prestações atrasadas
Fotos Simone GirotoSAUDADE DA FAVELAJosé Severino dos Santos, 50 anos, só pagou a primeira das quatro prestações de R$ 18 que recebeu: ‘‘Na favela eu não pagava nada’’O imóvel de Donizete Rosão, 40 anos, acumula dívida de R$ 123,00 somente com a Sanepar; ele está dependendo de vizinhos para conseguir água e já ameaça abrir um poço para acabar com o problemaSimone GirotoJosé Eva, 67 anos, com a mulher, Idalina, 56. Os dois conseguem manter a prestação em dia. ‘‘Quem paga a Cohapar passa fome.’’

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