Exemplo de uma cidade em metamorfose, a Vila da Fraternidade surgiu em uma época na qual os moradores de Londrina acreditavam que não precisariam do poder público para resolver o problema do déficit habitacional.
Quando os barracos se espalhavam em uma área no vale do Córrego Água das Pedras, zona oeste, bem próximo da mata que abriga o marco zero, a cidade começava a conhecer os efeitos colaterais de seu crescimento.
Como ocupava uma propriedade particular, ato conhecido como grilagem, a nova comunidade ficou conhecida como Vila do Grilo, onde no final da década de 50 viviam cerca de 50 famílias. A maior parte desocupados oriundos da zona rural, vítimas das geadas que assolaram os cafezais.
Num domingo ensolarado do inverno de 1963, a favela recebeu sua sentença de morte. Envergonhada com tanta pobreza, a classe média da Capital do Café decidiu intervir na situação antes que o poder público se manifestasse.
A recém criada União Fraternal Brasileira (UFB), que já atendia os miseráveis que perambulavam pelas ruas, resolveu construir ''moradias dignas'' para os favelados. Como foi noticiado na época, cerca de 140 membros formavam o núcleo inicial da UFB, que levantou dinheiro, material de construção e alimentos em uma espécie de campanha cívica.
®MDNM¯ O sonho de dar moradias dignas aos moradores da Vila da Fraternidade ainda poderia ser atual, apesar do desaparecimento dos barracos. A campanha se esvaiu como tantas outras. Apenas quatro casas de madeira foram construídas com recursos das campanhas.
A UFB foi idealizada e criada pelo professor e pastor presbiteriano Zaqueu de Melo (1914-1979), um intelectual pró-ativo que fundou o Instituto Filadélfia (mantenedor do Centro Universitário Filadélfia e do Colégio Londrinense) e que conseguiu apoio político para a idéia. Tanto que no ato de lançamento da Vila da Fraternidade, o prefeito Milton Menezes estava presente, e discursou na carroceria de uma caminhonete.
®MDNM¯Acely Melo, secretária dos Conselhos Superiores da Universidade Estadual de Londrina e sobrinha de Zaqueu, foi uma das voluntárias que participou do esforço de transformação do Grilo em Fraternidade. Ela integrava a União da Mocidade Presbiteriana, moças e rapazes que, aos domingos, formavam um mutirão. Além de abastecer as despensas, ensinavam hábitos de higiene e lavavam os barracos. ''Era uma dificuldade chegar lá. Não havia arruamento e o mato tomava conta de tudo'', relembra. ''Algumas tarefas eram bem difíceis, como dar banho em doentes, mas a gente era muito bem tratado e isso recompensava tudo''.
Acely não se orgulha daquele esforço. ''A gente era idealista. Achava que poderia acabar com a miséria. Hoje a gente sente tristeza porque além de não acabarmos com a aquela situação, a coisa piorou muito. Inclusive com violência, uma coisa que a gente não tinha medo e que nem existia''.

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