Ex-diretores confirmam desvios na AMA
Lucilia Okamura
De Londrina
Os ex-diretores da Autarquia Municipal do Ambiente (AMA), Mauro Maggi e Nelson Kohatsu, confirmaram ontem que o dinheiro desviado de órgãos da Prefeitura de Londrina, em 98 e 99, teve o objetivo de cobrir dívidas de campanha eleitoral. A exemplo de outro ex-funcionário da AMA, Edson Alves da Cruz, que prestou depoimento ao Ministério Público, os ex-diretores se referiram às campanhas do deputado federal José Janene, do deputado estadual Antonio Carlos Belinati e para o governo do Estado.
Maggi e Kohatsu deram uma entrevista coletiva ontem à tarde, na Casa do Jornalista, para contar, segundo o advogado deles João Tavares de Lima Filho, tudo que sabem, vivem e ouviram na autarquia. Foi na AMA que tiveram início as irregularidades (processos licitatórios fraudulentos), que mais tarde se estenderam para a Companhia Municipal de Urbanização (Comurb). O MP apura que os valores dos contratos licitatórios investigados giram em torno de R$ 15 milhões.
Tanto Maggi quanto Kohatsu não quiseram, inicialmente, citar nomes de possíveis favorecidos pelo desvio de recursos. Depois, afirmaram, souberam que o dinheiro serviu para dívidas de campanha eleitoral de 98 de Janene, Belinati e governo estadual. Eles acreditam que na autarquia o desvio foi de cerca de R$ 2 milhões. Além das irregularidades nas licitações, houve também fraude na compra de marmitex segundo notas fiscais, no primeiro semestre deste ano teriam sido adquiridos 10 mil unidades, quando em 98 foram consumidos apenas 3 mil.
Em depoimento prestado ao MP em agosto deste ano, Kohatsu disse que no segundo semestre de 98 os diretores da autarquia foram informados que era necessário que se arrecadasse recursos para a campanha, razão pela qual sistematicamente recebíamos determinações superiores para realizar pagamentos a determinadas empresas. Esses pagamentos normalmente eram disfarçados em forma de licitação, observou.
Maggi, que foi presidente da AMA de abril de 98 a abril de 99, contou que foi coordenador da campanha eleitoral em Ibiporã no ano passado e que os R$ 89 mil gastos no trabalho foram desviados. Houve uso de dinheiro público para fazer a campanha, afirmou.
Apesar de não ter comentado durante a entrevista, Maggi, em depoimento ao MP em agosto, disse que recebeu pressão do então secretário municipal de Governo, Gino Azzolini Neto. Você não é quadrado e é presidente de uma autarquia, portanto faça a campanha e se vire para arrumar o dinheiro para bancá-la, afirmou. A Folha teve acesso ao depoimento ontem.
A maneira conseguida para arrecadar recursos, continuou Maggi no depoimento, foi conseguir empréstimos junto a pessoas conhecidas, sendo que deu seus próprios cheques como garantia. Quando o dinheiro das licitações fraudulentas foi liberado, o ex-presidente da AMA saldou as dívidas e resgatou seus cheques. Essa conduta foi orientada por Gino Azzolini, observou.
Sobre Azzolini Neto, os ex-diretores disseram ainda que foram algumas vezes à instituição de ensino onde atua para pegar a assinatura do ex-secretário, na tentativa de regularizar as licitações. Isso acontecia mesmo após a saída de Azzolini Neto da prefeitura.
Os dois ex-diretores confirmaram que começaram a trabalhar na AMA por indicação do deputado José Janene. Segundo eles, todos os problemas ocorridos na autarquia eram repassados ao deputado. Ele sabia o que estava ocorrendo, afirmou Kohatsu, que foi presidente da AMA de janeiro de 97 a abril de 98 e, depois, por um ano foi diretor administrativo-financeiro.
Questionado pelos jornalistas sobre qual seria a participação de deputado federal, os dois ex-diretores disseram que a pressão para assinar licitações fraudulentas partia de Eduardo Alonso. Depois, Kohatsu acabou confessando: Ele (Janene) foi, no mínimo, omisso.
Sobre o prefeito Antonio Belinati, disseram: O prefeito, diretamente, nunca nos procurou. Depois, falando em escala de hierarquia, eles afirmaram que alguém tinha que autorizar Eduardo Alonso a lidar com todo o dinheiro movimentado nas licitações. Dizer que ninguém (na prefeitura) tinha conhecimento disso é balela, afirmaram.Nelson Kohatsu e Mauro Maggi revelam pressões e sustentam que dinheiro cobriu dívidas de campanhas políticas em 1998
Josoé de CarvalhoDINHEIRO PARA CAMPANHANelson Kohatsu e Mauro Maggi, durante entrevista coletiva ontem: Recebíamos determinações superiores





