Ex-deputado carrega revólver no cinto
James Alberti
O Smith & Wesson calibre 38, com cabo de ouro, só sai da cintura do empresário João Mansur, 76 anos, à noite, e vai para baixo do travesseiro. De manhã, após acordar e tomar o chimarrão que a empregada lhe traz no quarto, Mansur leva o revólver de cano longo de volta à cintura.
Afastado da política depois de ser deputado por 24 anos e governador interino por três vezes, Mansur anda armado há 60 anos e não prentende mudar o hábito agora, depois de velho. Nem mesmo por força da lei. Não vou entregar meu revólver de jeito nenhum. Vão ter que me levar preso, diz, cogitando a possibilidade do projeto do governo Federal ser aprovado.
Mansur acredita ter uma boa razão para ficar com a arma que ganhou de presente de um amigo gaúcho quando era prefeito de Irati, Sul do Estado: a própria segurança. Um fato ocorrido há seis anos dá suporte à crença. Conforme Mansur, o presente salvou-lhe a vida e a da mulher durante um assalto. O empresário tomava chimarão no quarto, às 6 horas da manhã, quando dois homens entraram no quarto. Os assaltantes haviam rendido a empregada, que tinha saído para comprar cigarro.
Sob a mira de dois revólveres, Mansur começou a conversar com os assaltantes. Num pequeno discuido deles, saquei a arma debaixo do travesseiro e atirei, conta o empresário. O primeiro disparo atingiu o peito de um dos assaltantes. Este largou a arma e fugiu.
O outro disparou quatro tiros antes de ser atingido na cabeça. Ferido, o assaltante ainda fez outros dois disparos antes de cair morto sobre a cama do casal. A caminho do hospital, o ladrão que havia fugido também morreu. A mulher do empresário havia acompanhado a cena aos gritos.
Hoje Mansur afirma ter tido uma mãozinha durante o tiroteio. É uma questão de sorte. Fui protegido por Deus, diz. Passou o tempo, mas ficou o jeito. Se a situação se repetisse, o empresário não tem dúvida de como agiria. Decidi no ímpeto que ia partir para a guerra, mas reagiria de novo. Vou reagir sempre.
Com esta postura, Mansur não poderia ser favorável ao projeto do ministro da Justiça. Para ele, a proibição da venda de armas e do porte somente faria crescer o comércio ilegal de armas, fecharia fábricas, causaria desemprego e não diminuiria a violência. Isso não tem explicação. Nós temos tantos problemas e eles estão preocupados com as armas legalizadas, diz, indignado.
Uma receita para reduzir os crimes, afirma, é melhorar o salário da polícia, equipar as delegacias, aumentar o efetivo e combater o comércio ilegal, responsável pela entrada da maioria das armas usadas em crimes no País.(J.A.)





