Simone GirotoEsforçoBelinatti transporta as casas praticamente sozinho; conta apenas com a ajuda de um caminhoneiroQue tal mudar de endereço e levar a casa junto? Desde que ela seja de madeira, isso é possível. E é essa a especialidade de João Amadeu Belinatti (ele diz que é primo do prefeito de Londrina, Antônio Belinati) um ex-pracinha brasileiro que combateu na Itália durante a 2ª Guerra Mundial e que há 33 anos vive carregando casas pelas ruas de Campo Mourão e até mesmo pelas estradas do Estado. Belinatti tem 94 anos e não pensa em parar. ‘‘Velho, se parar morre’’, diz.
A força e a disposição de ‘‘seo João Amadeu’’ surpreendem a todos que o conhecem. Muitos chegam a duvidar da idade dele. Ele faz o transporte das casas praticamente sozinho. Conta com a ajuda apenas de um caminhoneiro. Mesmo assim, Belinatti garante que não demora mais do que quatro dias para tirar a casa de um terreno e colocá-la em outro, pronta para morar. ‘‘Se não chover, dá para fazer até em menos tempo’’, explica.
A ‘‘mudança completa’’ depende também da distância. Belinatti transportou recentemente uma casa de Jaracatiá, em Goioerê, até São Lourenço, em Cianorte, num trecho de cerca de 140 quilômetros. O transporte mais longo, porém, passou dos 300 quilômetros. Foi entre Toledo e Planaltina. ‘‘A distância não atrapalha’’, conta. ‘‘O que dificulta são apenas algumas estradas, que são muito ruins’’.
Simone GirotoRecordeMaior casa transportada foi de 140 metros quadrados: ‘‘não há perigo da casa cair’’
FácilBelinatti cobra em torno de R$ 350,00 para fazer o transporte de uma casa e, muitas vezes, chega a levar os móveis todos dentro da residência. Ele garante que não há perigo da casa cair. ‘‘Ela só sai aqui de cima com os macacos’’, explica. Para carregar as casas, ele suspende a estrututra com macacos e faz um buraco embaixo dela. Daí, é só o caminhão estacionar no buraco, retirar os macacos e sair com a casa. ‘‘Não é difícil’’, diz o ex-combatente.
Se a casa for coberta com telhas tipo Eternit, nem é preciso mexer no telhado. Se for telha de barro, porém, é necessário retirar a cobertura para o transporte. Quando começou na profissão, Belinatti teve dificuldades em convencer os motoristas de caminhão de que não havia perigo. ‘‘Eles diziam que eu tinha ficado louco na guerra’’, recorda. Por isso mesmo, as primeiras casas foram levadas num caminhão que pertencia ao próprio Belinatti.
O ex-combatente conta que aprendeu o ofício em São Paulo, mas nos primeiros trabalhos ele apenas arrastava as casas dentro de um mesmo terreno. Em 1964, quando começou na profissão, ganhou um sítio de 12 alqueires da Prefeitura de Campo Mourão em troca de recuar todas as casas da Avenida Capitão Índio Bandeira, a principal da cidade, que ficaram na calçada depois que o prefeito Mílton Luiz Pereira ordenou o alargamento da via.
SangueDesde então, Belinatti não parou mais. Segundo ele, chegam a ser transportadas quatro casas por mês. ‘‘É bem mais barato do que desmanchar e fazer de novo e não se perde nada’’, garante. Ele já chegou a carregar uma casa de 140 metros quadrados e jura que nunca ocorreram acidentes com as residências. Há três anos, porém, uma casa caiu sobre ele. Belinatti, que já tinha 91 anos, fraturou uma perna, quebrou duas costelas e bateu a cabeça.
‘‘Fiquei três meses sendo carregado’’, conta. Mas oito meses depois do acidente ele estava de volta ao trabalho. Até hoje, Belinatti anda com o joelho enfaixado. Mas ele não reclama. ‘‘Nunca tive problemas de saúde’’. Antes do acidente com a casa, ele só tinha ido parar no hospital por causa da guerra, onde ficou surdo (ele usa um aparelho interno) e teve que fazer várias cirurgias devido a ferimentos. ‘‘O barulho do canhão sangrava nossos ouvidos’’, lembra.

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