Ex-brasiguaios recusam terras do Pará
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terça-feira, 15 de setembro de 1998
Paulo Pegoraro 
Lavradores ex-brasiguaios que estavam acampados nos fundos da sede do Incra em Cascavel foram levados para um local provisório, depois de terem recusado as terras que lhes foram oferecidas pelo órgão no Sul do Pará. Representantes das 25 famílias que estavam há 16 dias na sede foram conhecer aquelas terras e voltaram decepcionados, segundo afirmaram, porque elas não seriam adequadas para culturas praticadas no Sul do Brasil, ou mesmo no Paraguai, de onde retornaram.
Antes de visitar o Pará, os sem-terra praticamente haviam aceitado a oferta, mesmo porque as 90 pessoas do grupo estão em completo estado de miserabilidade. A gente falou sem saber e caímos do cavalo, ironizou Sebastião Lopes, 36 anos, 4 filhos, que passou 15 anos no Paraguai como peão e meeiro. Sebastião e os demais lavradores retornaram ao Brasil há quatro meses, instalando-se em barracos de lona preta na Fazenda Mitacoré, em São Miguel do Iguaçu (102 quilômetros a oeste de Cascavel).
Depois de participar de uma invasão em Mariluz (35 km a sudeste de Umuarama), de onde foi despejado, o grupo acabou deixando a Mitacoré, por desentendimento com coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Sentindo-se isolados pelo MST, decepcionados com as terras no Norte brasileiro, e sem que o Incra lhes dê perspectiva de assentamento definitivo, os ex-brasiguaios se sentem discriminados e até mesmo vítimas de racismo, segundo Sebastião Lopes. Estamos rolando de um lado para outro, disse.
Gerônimo de Paula, 41 anos, cinco filhos, contou que nas terras do Pará, na região de Conceição do Araguaia (2,5 mil quilômetros de Cascavel) só tem areia e piçarra - que, segundo ele, é uma espécie de pedregulho. Gerônimo afirma que, no Pará, só dá pasto ou coco, coisa que a gente não sabe plantar. Além disso, nem água vimos.
Gerônimo afirmou que lavradores já assentados pelo Incra acabaram abandonando as terras. Ele disse que não conhece nenhuma família do Sul que aceitou ir para o Pará. Se fosse bom, já tinha sulista lá, observou.
Mário Batista, 36 anos, que também foi ver as terras e se diz cansado de rolar, já decidiu abandonar a lona preta. Ele vai morar com a mulher e três filhos de favor em um cômodo da casa do primo, num bairro de Cascavel, na expectativa de arrumar emprego na construção civil. Não tenho mais esperança de ficar na terra. O emprego na cidade não está garantido, mas ele tem a expectativa de ganhar pelo menos R$ 350 mil.
Os ex-brasiguaios foram transferidos pelo Incra para uma fazenda desapropriada em Ramilândia (81 quilômetros a Oeste de Cascavel), onde há um acampamento de sem-terra que esperam assentamento. Durante o tempo em que permaneceram em Cascavel, em barracões do Incra, em nenhum momento o órgão tentou despejá-los. A direção do órgão tinha a expectativa de que aceitassem as terras no Pará, o que poderia estimular outros grupos ao mesmo destino, aliviando a pressão por terras no Paraná.


