Ex-aluna quer preservar casa dos padres
Érika Pelegrino
De Londrina
Uma ex-aluna do Colégio São Paulo está liderando um movimento em prol do tombamento da casa do padres, construída no terreno onde funciona o estabelecimento de ensino, na Rua Piauí, em frente à praça Sete de Setembro, centro de Londrina. Suely Beggiato Baccaro estudou no local em 1958, quando lá funcionava a escola Vicente Palotti.
Eu considero muito triste que Londrina, uma cidade jovem e ainda sem tradição histórica esteja demolindo as edificações que trazem parte de sua memória. Não podemos simplesmente dar as costas ao passado, ela afirma. O terreno do colégio foi vendido pela Sociedade FA DI Bruno, dos padres palottinos, em julho de 1997 para a Construtora Quadra. O Colégio São Paulo, com mais de 30 anos, será fechado e todas as edificações do local serão demolidas.
Coordenadora do setor de comunicação da Arquidiocese de Londrina e gerente de marketing da Rádio Alvorada, Suely Baccaro entende que, por se tratar de uma construção do início da colonização de Londrina, que serviu de casa para os primeiros párocos da cidade, deve ser preservada. Seria, na opinião da ex-aluna, uma forma de resguardar a memória do início da religião católica na região.
Suely Baccaro afirma que está tentando o apoio de diversos segmentos da sociedade para conseguir a preservação da casa dos padres. Ela já entrou em contado com a Universidade Estadual de Londrina (UEL), através da Casa dos Pioneiros, e com a Arquidiocese. Ainda esta semana estará contatando a Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), a Sociedade de Amigos do Museu Histórico Padre Carlos Weiss, a Associação Médica de Londrina, a Associação Odontológica de Londrina, entre outras.
É só uma questão de despertar o interesse da comunidade para o fato, afirma. Seria uma atitude simpática da Construtora Quadra com a comunidade se preservasse o local, que poderia ser aproveitado com criatividade, complementa.
A Gerência de Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria Municipal de Cultura em conjunto com o Setor de Patrimônio Histórico do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) também já está se movimentando para preservar a história da casa dos padres.
Segundo Vanda de Moraes, da gerência de patrimônio, na próxima quarta-feira irá começar um levantamento fotográfico e documental da casa.Iremos resgatar a planta original para verificar se foram modificados os aspectos arquitetônicos. Se a construção realmente for demolida, pelo menos teremos um registro histórico, afirma.
Vanda de Moraes explica que o pedido de tombamento pode ser feito através da gerência de patrimônio, ou diretamente na Coordenadoria de Patrimônio Cultural, em Curitiba. O pedido deve apresentar o maior número possível de provas circunstanciais que comprovem a importância de se preservar o prédio fotos, documentos, depoimentos no caso salientando o aspecto da história da religião não só em Londrina, mas também na região.
O prazo para o tombamento ser aprovado é de seis meses, segundo Vanda de Moraes. Londrina conta apenas com duas edificações tombadas: o Cine-Teatro Ouro Verde, a antiga rodoviária que hoje foi transformada em museu de artes junto com a Praça Rocha Pombo. Ambos são obras do arquiteto Villanova Artigas.
Segundo Vanda de Moraes, o Ouro Verde foi tombado devido à sua atividade cultural atual que repercurte em todo o Estado, e a rodoviária por ser uma obra modernista, além de ambos serem projetos arquitetônicos de um arquiteto famoso no Brasil.
O Museu Histórico Padre Carlos Weiss, de acordo com a chefe da gerência de patrimônio, também teve um pedido de tombamento, mas foi negado por ser considerado um prédio eclético, e não ter um estilo arquitetônico definido. De acordo com a lei estadual nº 1211 de 16 de setembro de 1953, que dispõe sobre o patrimônio histórico, artístico e cultural do Estado, o tombamento de uma construção só é possível quando esta tem importância histórica para o Estado.
Muitas outras edificações que faziam parte da memória da cidade também já foram demolidas. Há alguns anos, há poucas quadras do Colégio São Paulo, a casa onde funcionou o primeiro escritório do Sercomtel também foi demolido. A construção era em estilo europeu com telhado em madeira maciça com desenhos talhados.
O diretor da Construtora Quadra, Luiz Carlos Moro Pires, não atendeu a Folha. Ele designou o advogado Júlio Salinet para falar sobre o assunto. O advogado afirma que a idéia de preservar a casa dos padres jamais foi cogitada pela Quadra, senão eu teria sido consultado.
Salinet diz também que está previsto um projeto misto para o terreno de 32 mil metros quadrados. Além de um shopping center, serão construídas unidades habitacionais e um estacionamento.Suely Baccaro lidera movimento pelo tombamento do imóvel construído no terreno onde funciona o Colégio São Paulo
A casa que abrigou os primeiros padres e que corre o risco de ser demolida para dar lugar a shopping center; no detalhe, reprodução da foto do imóvel construído em 1934 para ser um seminário (cedida pelo Museu Padre Carlos Weiss)HISTÓRIA





