Evento tenta recuperar medicina psicossomática
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terça-feira, 01 de julho de 1997
Josiane Schulz Londrina 
Um olhar mais criterioso para o ser humano, em todos os seus aspectos: físico, psíquico e social. Esse é o principal objetivo da medicina psicossomática. São médicos que buscam ver o paciente como um todo e tratar seus problemas de forma integrada. Medicina psicossomática não é especialidade de um médico, como cardiologia ou psiquiatria. Mas é uma postura, uma forma de exercer a profissão, explicou a médica Lorete Kotze, presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática.
Essa nova filosofia reuniu médicos, psicólogos e profissionais da área de saúde, no final de semana. Cerca de 120 pessoas discutiram o assunto, durante o 1º Encontro de Medicina Psicossomática, que aconteceu na Associação Médica de Londrina.
O médico Alceu Serpa Ferraz, um dos organizadores do evento, acredita que a medicina atual precisa recuperar aspectos que foram perdidos com a evolução científica e tecnológica. São necessários esforços para resgatar a atenção à pessoa doente. Hoje temos especializações e super especializações que fazem os médicos olharem para apenas uma parte do organismo. Isso provoca o distanciamento da pessoa humana, que é essencial, afirmou.
Ferraz ressaltou, entretanto, que o problema não está na evolução do conhecimento, que é necessária. A questão, segundo ele, está na forma de trabalhar. Para ele, uma conversa mais detalhada, a maior atenção ao paciente pode revelar, por exemplo, que a doença está relacionada a algum fator social. Ou seja, não é tratar apenas os sintomas, mas entender a causa deles, para poder atender melhor e ter resultados mais eficazes. A atenção que dispensamos a esses doentes é fundamental, disse Ferraz.
É preciso entender a linguagem dos sintomas, explicou Lorete Kotze, que falou durante o Encontro sobre O paciente que não tem nada. Ela exemplificou a forma de atuação da medicina psicossomática com os casos de pacientes que procuram o médico, fazem exames, e não há constatação de nenhuma doença. Mas o sintoma existe. E isso resulta numa peregrinação em todos os especialistas. O que poderia ser evitado, se o médico tivesse dedicado ao paciente um tempo maior, tentando analisá-lo enquanto corpo e mente. Não podemos transferir para os equipamentos o atendimento à pessoa, argumentou.
Outro exemplo foi dado pelo médico Hamilton Grabowski, de Curitiba. Ele falou aos participantes do Encontro sobre Distimia - Distúrbio Psicossomático de Humor. Grabowski explicou que a distimia é uma doença caracterizada por mau humor crônico. Segundo ele, a doença é geralmente acompanhada de distúrbios orgânicos, como dor de cabeça e palpitações. Por isso, o que acaba acontecendo é o tratamento dos sintomas, enquanto que a doença não é diagnosticada. Os médicos se fixam nas queixas e a doença persiste. Outro agravante: como é um distúrbio de humor o doente acha que é uma característica da personalidade. Para diagnosticar a distimia, o médico precisa de informações de aproximadamente dois anos da vida do paciente, explicou, completando que a distimia atinge em torno de 3% da população, sendo a maioria mulheres. Ou seja, a projeção é de que no Brasil haja 4,5 milhões de distêmicos.
Ferraz, Grabowski e Lorete Kotze acreditam que, se todos os médicos e profissionais da saúde adotassem a forma de trabalhar da medicina psicossomática, os gastos com saúde no País iriam reduzir significativamente. Os números de exames e de reincidências iriam reduzir e os tratamentos seriam mais eficazes. Dessa forma, o volume de consultas diárias também diminuiriam, argumentam.
Eles alertaram, entretanto, que para os médicos da rede pública terem condições de atender com mais atenção e tempo é necessário que o governo dê condições para isso. Temos um sistema de saúde, em que os médicos têm que atender um paciente a cada 3 minutos. lembram.
Eles enfatizaram que a medicina psicossomática não é exclusiva de consultórios, mas deve ser adotada pelos profissionais que trabalham em hospitais. É uma tentativa de humanizar os serviços de saúde. Despertar a consciência de que trabalhamos com seres humanos, o que muitas vezes é esquecido, afirmou Lorete Kotze. Segundo a médica, é necessário também desmistificar a doença psicossomática. Quem adoece primeiro: o corpo ou a mente? Os dois simultaneamente. Ou seja, qualquer problema que tenhamos envolve todo nosso organismo. Portanto, todas as doenças são psicossomáticas, explica.


