Até que ponto o homem pode ou não manipular material genético e criar clones de animais ou mesmo clones humanos? A eutanásia é alívio da dor de um doente em estado crítico ou não passa de suicídio? O governo pode transformar qualquer pessoa num doador de orgãos em potencial, como define a nova lei federal sobre transplantes?
Essas e outras questões começaram a ser debatidas ontem à noite, no anfiteatro do Crystal Palace Hotel (área central), na 1ª Semana Internacional de Bioética de Londrina. O evento é organizado pela Irmandade da Santa Casa e até o dia 21 reunirá personalidades das áreas Médica, de Direito, Filosofia, Jornalismo etc.
Mais de 500 pessoas de todo o Brasil já fizeram inscrições para o evento. Segundo o presidente do evento, Fahd Haddad, a grande procura reflete a atualidade e a importância dos temas debatidos.
‘‘Muitos conflitos são causados por desconhecimento, não há clareza nas questões, e a gente também está sofrendo com essas dúvidas. Então o que nós queremos é trazer um pouco mais de esclarecimento para todos’’, diz Haddad. Para ele, a velocidade com que essas questões hoje chegam à sociedade - através dos meios de comunicação - muitas vezes impede uma análise apurada e um posicionamento mais crítico por parte de cada um. Daí a importância do evento. ‘‘E a Santa Casa, que é o hospital mais antigo de Londrina, está fundamentado nos princípios da misericórdia’’.
A Semana foi aberta pela conferência ‘‘Bioética no 3º Milênio’’, proferida pela professora Elena Lugo, diretora catedrática de Ética Biomédica e Filosófica da Universidade de Porto Rico. Ph.D pela Universidade de Georgetown, em Washington, capital dos Estados Unidos, ela também é escritora e tem participado na última década como conferencista em países como França, Austria, Equador e Peru. A professora participará de todas as mesas-redondas no decorrer da Semana.
Para Elena Lugo, hoje existem duas grandes preocupações que incidem diretamente no contexto da bioética. ‘‘O mais importante é uma distribuição mais justa da saúde. E depois a grande tecnologização, em detrimento ao conceito de ser humano’’, aponta, exemplificando as novas formas de procriação e também a utilização da eutanásia.
‘‘A ética tem que antecipar o que a tecnologia pode fazer, dar metas, finalidade’’, acredita. Elena Lugo aponta, por exemplo, que a clonagem humana até seria admissível se fosse feita de forma parcial, para produção de orgãos que seriam necessários para vida do paciente. Não é o caso de criar um clone de uma outra pessoa. ‘‘Tecnicamente não é seguro. E eticamente não é acertado, porque viola a integridade, a identidade e a dignidade das pessoas’’, avalia.
Elena Lugo considera que a discussão da bioética ainda encontra muita resistência dentro do primeiro mundo, como Estados Unidos e Europa, onde parte da comunidade científica é considerada ‘inescrupulosa’. Na América Latina, no entanto, as possibilidades para avançar no tema são melhores, diz ela.

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