Evento discute
alternativas para
tratar doente mental
Para entidade, pacientes não devem ser excluídos da sociedade
Benê Bianchi
O Dia Nacional da Luta Antimanicomial será comemorado hoje em Londrina com exposição de painéis, ato público, palestra e uma mesa-redonda sobre saúde mental e cidadania. O objetivo dos eventos, organizados pela Associação Londrinense de Saúde Mental, é mostrar que não é confinando e excluindo o doente que se consegue superar seu sofrimento ou minimizar a gravidade de sua doença.
Seguindo o lema ‘trancar não é tratar’, a Associação defende formas alternativas de tratamento ao doente mental, como hospital-dia, núcleos de atenção psicossocial, centros de referência e pronto atendimento em saúde mental, etc. ‘‘Contamos com uma equipe de voluntários que lutam para melhoria do atendimento na saúde mental, que é muito maltratado no Brasil. O doente mental não existe para a sociedade’’, comenta a presidente da entidade, Adélia Fagotti Buranelli.
O vice-presidente da Associação, o médico psiquiatra Percy Galimberti, relata que, em média, as internações psiquiátricas são de 45 dias. ‘‘Os pacientes não são separados de acordo com o problema que apresentam, propiciando um clima altamente desfavorável’’, critica o médico. Ele cita que, em determinadas ocasiões, há necessidade de internações, que podem ser curtas.
No Núcleo de Atendimento Psicossocial de Londrina (Napes) - que atende adultos - além de funcionar como hospital-dia e ter pronto-socorro psiquiátrico, há leitos para internações curtas, de no máximo sete dias. ‘‘Esse período é suficiente para resolver mais de 80% das situações de crise’’, cita Galimberti. Na cidade, há também um Napes que atende, exclusivamente, crianças.
Segundo o médico, há casos de internações que podem trazer mais prejuízo que benefício para o paciente. Um exemplo típico, citado por ele, é de alcoolismo. O médico explica que o paciente fica fora de si pelo estado de intoxicação, chegando ao estado de psicose alcoólica. Neste estágio, ele apresenta distúrbios de comportamento e de percepção. Passa a ter delírios e pode se tornar agressivo.
‘‘A própria família pede que ele seja internado, o que é realmente recomendado. Mas se for levado para um hospital tradicional, ficará internado por 35 dias, em média. Ocorre que dias após a internação, ele já está lúcido e irá vivenciar um ambiente que cria uma grande angústia nas pessoas. Acredito que a situação dele se agrave quando isso ocorre’’. Segundo o médico, 40% dos casos de internação psiquiátrica, em Londrina, são em decorrência do alcoolismo.
R.M, 25 anos (ele não quer que seu nome seja divulgado), passou a ter delírios após um acidente de moto e já perdeu a conta de quantas vezes ficou internado em hospitais tradicionais. ‘‘Eu sentia muita angústia e insegurança,’ conta. Para ele, a melhor opção de tratamento é a que faz hoje, no Napes, que frequenta diariamente - à noite ele retorna para sua casa. ‘‘O hospital-dia é melhor’’, fala.
O médico Percy Galimberti lembra que no Paraná há legislação que regulamenta as internações, que devem ser comunicadas à Promotoria de Garantias de Direitos Constitucionais. A promotoria faz um acompanhamento de cada caso para evitar que haja internações inadequadas. No prazo de 72 horas após a entrada de um doente mental, o hospital tem que fazer a comunicação ao promotor responsável, Paulo Tavares.
As comemorações do Dia Nacional da Luta Antimanicomial serão abertas hoje, às 8 horas, no saguão da Prefeitura, com início de exposição de painéis alusivos à saúde mental. No período da tarde, com início às 14 horas, haverá um ato público com participação de usuários, familiares, técnicos, no Calçadão. Às 20 horas, o médico psiquiatra e sanitarista do Rio de Janeiro, Paulo Duarte de Carvalho Amarante, fará palestra sobre ‘políticas de saúde mental no Brasil’. A palestra será no auditório da Associação Odontológica do Norte do Paraná.
No dia 20 (dia 19 não haverá atividade), às 20 horas, será realizada mesa-redonda sobre ‘saúde mental e cidadania, a mudança do modelo assistencial’, com participação de autoridades locais. O evento será no auditório da Associação Médica de Londrina.

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