Evaristo: o 'homem-bóia'
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Primeiro de Maio - Ele tem um jeitão de ''maluco beleza'' e pode ser apresentado como o sossego em pessoa. Com 53 anos, nascido e criado em Primeiro de Maio, o pedreiro Evaristo Roio Paiva é um desses brasileiros que ''se escondem'' pelos rincões interioranos, deixando ocultas suas histórias para lá de inusitadas e proezas que podem até render alguns minutos de fama. No caso de Evaristo, a notoriedade pode vir em forma de um registro no Guinness Book, o livro dos recordes.
Lá pelas bandas de Primeiro de Maio, todo mundo sabe que ele é o homem que mais tempo consegue ficar boiando na imensidão de águas da Represa Capivara. Muita gente sabe também que às vezes ele dorme dentro de um túmulo do cemitério na cidade, hábito que Evaristo confirma e relata com naturalidade.
Apesar de tímido, o pedreiro topou contar sua história e permitiu que a FOLHA acompanhasse uma das suas sessões de ''relax'' nas águas da represa. Ele conta que desde guri sempre gostou de nadar. Antes mesmo das águas da represa inundarem boa parte das terras da região, em 1975, o Córrego do Jacu, que foi engolido pelas águas, era o seu local predileto para passar as horas de lazer.
''Desde menino sou bom nadador. Brincava no córrego e também ia até o Rio Tibagi, o qual eu atravesso de lado a lado desde garoto. Quando a represa encheu, eu decidi que também iria atravessá-la a nado e faço isso até hoje'', conta.
Pessoas que moram ou trabalham às margens da Capivara garantem que ele realmente faz a travessia em uma área próxima à ponte que fica na entrada da cidade. Evaristo gasta em torno de 15 minutos para vencer cerca de 300 metros de água. O estilo de natação? É difícil definir, mas não é nenhum destes ensinados nas academias. As braçadas não são coordenadas, mas rendem...
Os coletes salva-vidas, para ele, são dispensáveis. ''Não uso de jeito maneira, não preciso'', justifica. O único cuidado é não entrar na água de barriga cheia. ''Tinha um rapaz aqui que nadava quase tão bem quanto eu, mas ele morreu de congestão, por isso evito nadar depois de comer'', argumenta.
No entanto, mesmo sendo bom nadador, Evaristo gosta mesmo é de boiar, coisa que faz praticamente todos os dias, a não ser quando está cheio de serviço. ''Quando estou em alguma obra, debaixo daquele 'sol de rachar', fico pensando que poderia estar boiando. É dureza.''
Na água, de braços abertos e barriga pra cima, o pedreiro - que cultiva as longas madeixas em homenagem aos tempos da Jovem Guarda - parece entrar em transe, tamanha é a sua concentração. E foi essa maneira de desligar-se do mundo que fez com que ele ficasse nove horas consecutivas boiando um dia destes. Evaristo garante que começou a boiar às 14h, pegou no sono, e só acordou às 21h, quatro quilômetros distante de onde havia entrado na água. ''Os meus amigos já estavam me procurando. Já tinha gente indo à polícia dar queixa do meu desaparecimento'', relata, com um riso no rosto.
Evaristo acha natural a possibilidade de ir parar no Guinness Book: ''Podem vir aqui fazer os testes que quiserem comigo. Estou pronto'', responde. Empolgação mesmo ele demonstra quando o repórter fala do mar. O pedreiro que adora a água nunca chegou perto do oceano. ''Tenho vontade demais de conhecer o mar, mas falta grana'', lamenta.
Para finalizar, o repórter pergunta sobre essa história de ele dormir dentro de um túmulo, no cemitério da cidade. Sem se fazer de rogado, o ''homem-bóia'' explica que começou a fazer isso há uns tempos, quando morava com uma mulher. Vez ou outra, quando acontecia alguma briga do casal, ele ia dormir no cemitério para evitar maiores atritos. ''Agora estou solteiro de novo e não tenho dormido lá, mas se precisar voltar a dormir dentro do túmulo, eu volto''.


