Dez meses. Para autoridades da Saúde em Londrina, é pouco tempo para resolver os problemas administrativos que impedem a realização de cirurgias complexas de mão em pacientes da rede pública. Mas só quem teve a mão mutilada e ficou sem trabalho, enfrentando dores e preconceito, pode dizer o quão longo é quase um ano de espera.
Essa é a situação enfrentada por mais de 200 pacientes que aguardam por uma cirurgia no Hospital Evangélico (HE) de Londrina, único na região credenciado para realizar procedimentos cirúrgicos de ortopedia de mão de alta complexidade. O credenciamento pelo Ministério da Saúde foi feito em maio de 2003, significando que o hospital passaria a receber recursos do Munícipio relativos a reimplantes e microcirurgias.
À época, a medida foi celebrada como um avanço na área de saúde para todo o Estado, e uma esperança para quem teve as mãos gravemente feridas. Seria a chance de os pacientes darem continuidade à série de cirurgias que precisam, gratuitamente. Poucos meses depois, entretanto, o Evangélico deixou de realizar esses procedimentos, situação que persiste até agora. O hospital continua credenciado, mas parou de oferecer o serviço por questões burocráticas.
''O hospital põe a culpa na Secretaria de Saúde. A Secretaria diz que a culpa é do hospital e dos médicos. Um joga a responsabilidade para o outro e assim vão enrolando a gente, que precisa dessas cirurgias'', protesta Edvaldo Rodrigues, 32 anos, morador em Arapongas (37 km ao oeste de Londrina). Marceneiro, ele teve os quatro dedos da mão esquerda decepados num acidente de trabalho no final de 2000. Os dedos foram reimplantados, mas para recuperar os movimentos Rodrigues precisa de pelo menos mais duas cirurgias. ''Faz 3 anos e 9 meses que acordo pensando nessa cirurgia, não tenho mais paciência para esperar, como eles pedem. Não aguento mais promessas'', diz. O marceneiro afirma que é o primeiro paciente da fila.
O relato dele é semelhante ao do ex-caminhoneiro Evailton Rodrigues, 56, cuja mão foi esmagada em um acidente de trânsito, também em 2000. ''Fui dez vezes em médicos de Curitiba até que me mandaram para o Evangélico em Londrina. Entrei na fila de espera e achei que poderia operar em agosto (desse ano), mas não deu. Se eu pudesse voltar a ter o movimento dessa mão, me ajudaria tanto'', afirma.
Para outro caminhoneiro, o morador de Ibiporã (14 km a leste) Romildo Jesus de Oliveira, 32, a espera por uma cirurgia pode significar a inutilização da mão. Ele também sofreu um acidente com caminhão e já foi submetido a oito cirurgias, a última há 10 meses. ''O médico do Evangélico falou que meus movimentos estão cada vez mais comprometidos, e que se demorar muito para operar não haverá mais conserto'', exaspera-se, acrescentando que sente muitas dores. ''Estou perdendo a chance de me reintegrar no meu trabalho, que é o que mais quero. Não desejo ficar encostado''.

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