Evangélicas se unem contra a violência e pela igualdade de gênero
Coletivo EIG foi criado em 2015 e chegou a Londrina no ano passado; objetivo é defender mulheres vítimas de violência praticada em ambientes religiosos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Coletivo EIG foi criado em 2015 e chegou a Londrina no ano passado; objetivo é defender mulheres vítimas de violência praticada em ambientes religiosos
Simoni Saris - Grupo Folha
Em dezembro de 2018, o Brasil e o mundo ficaram estarrecidos com as denúncias de que o médium goiano João Teixeira de Faria, o João de Deus, abusava de mulheres que procuravam a Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), em busca de cura para doenças físicas e mentais. Após a primeira denúncia, centenas de outras vítimas tomaram coragem e revelaram às autoridades o lado sombrio do líder espiritual. Casos como os de João de Deus ganham notoriedade pela fama conquistada ao longo de anos, resultado de um trabalho sempre tido como sério e respeitado. Mas abusos cometidos em ambientes religiosos são bem mais frequentes embora nem sempre venham à tona.
O coletivo EIG (Evangélicas pela Igualdade de Gênero) surgiu a partir de inquietações de teólogas e mulheres de fé que se uniram pelo interesse em comum de defender as mulheres vítimas de violência praticada em ambientes religiosos e, sobretudo, levantar a bandeira da igualdade entre gêneros. O movimento foi criado em 2015 e chegou a Londrina no ano passado.
A questão é delicada. Tratar de abusos envolvendo fiéis e lideranças religiosas significa mexer em um vespeiro, mas a coordenadora do EIG Londrina, Vanessa Carvalho Mello, considera fundamental tecer uma rede de proteção às mulheres que procuram em igrejas acolhida e cuidado, mas acabam sendo vítimas de abusos. “O nosso recorte é a violência em espaços de fé. Infelizmente, por toda uma história de patriarcado e de um discurso desapropriado, mulheres têm sofrido abusos”, destacou.
A rede de enfrentamento inclui organizações governamentais e não governamentais e o coletivo é uma porta de acesso a outros serviços de atendimento às vítimas. “A gente está diretamente em contato com essas mulheres e posso dizer com propriedade que (o ambiente religioso) talvez seja o lugar onde mais existe silêncio e menos se chega com rapidez para fazer a denúncia”, afirmou Mello.
Assim como aconteceu com o médium João de Deus, líderes religiosos e fiéis mal intencionados se utilizam da própria religião para justificar o abuso e evitar o escândalo. Tentam convencer a vítima de que falam em nome de Deus, em nome de uma força espiritual transcendente na qual ela acredita. Assim, muitas vezes, conseguem garantir o silêncio sobre as condutas criminosas e perpetuar a violência.
ENFRENTAMENTO
No primeiro semestre deste ano, o EIG promoveu o evento “Meu corpo, minha fé – violências e abuso na religião”, com roda de conversa para discutir a questão sob a ótica do direito, da assistência social e da teologia. ”Discutimos sobre o recorte dessas mulheres de várias religiões e que por vários anos sofrem ou sofreram abuso dentro dos espaços de fé, que seriam espaços sagrados. A partir desse primeiro encontro, aconteceram parcerias com a prefeitura”, contou Mello. Na Semana da Mulher, em março, foram realizadas oficinas para discussão dos casos de abuso, ampliando o debate sobre o tema.
Nos estudos de caso, constatou a coordenadora do EIG Londrina, os relatos das vítimas deixam claro que líderes religiosos e fiéis mantêm um discurso machista e patriarcal para legitimar a violência. “Às vezes, a vítima relata o abuso aos familiares, mas a família vem de uma tradição religiosa de muitos anos e ajuda a acobertar o caso”, comentou Mello. “Estamos trabalhando com uma rede de enfrentamento, não dá para trabalhar sozinho. A questão da violência contra a mulher é uma epidemia social. As mulheres estão sendo abusadas por pastores, padres. Essa relação do líder religioso, do guru, do líder espiritual sendo na Terra uma representação do divino torna a denúncia desses casos muito mais difícil.”
No último dia 27 de julho, o EIG promoveu uma segunda roda de conversa em Londrina, dessa vez com a apresentação de uma cartilha destinada a líderes religiosos e técnicos de organismos públicos que informa e alerta sobre a violência em espaços religiosos. O material orienta sobre como as lideranças religiosas podem tratar essa temática dentro das igrejas, como encaminhar os casos e o contato do EIG em Londrina, que presta atendimento sigiloso pelo e-mail [email protected].
UM NOVO OLHAR
Além dos debates, a coordenadora do EIG Londrina, Vanessa Carvalho Mello, defende uma nova leitura da Bíblia, a partir da teologia feminista, que propõe um olhar igualitarista entre seres humanos. “É necessário fazer uma nova hermenêutica dos textos bíblicos em razão do nosso país ser majoritariamente cristão. Todos fomos criados à imagem e semelhança de um deus igualitário. Trabalhamos pelo fim da sacralização da violência. A gente teme muito o retrocesso que tem levado ao conservadorismo nacional porque a tendência é regredir nessas questões que já avançamos.”
Embora pareça uma atitude inovadora da Igreja Evangélica, a coordenadora do coletivo destaca que o grupo apenas reforça a postura adotada por Jesus Cristo que, segundo o cristianismo, pregava a igualdade entre os seres humanos. “O que foge disso vai contra Deus. Jesus veio para dizer que é contra a violência em todos os seus territórios. Talvez esse seja um campo que não tenha tanta visibilidade social porque existe um boicote silencioso dentro dessa temática e porque é muito delicado falar sobre isso, mas existem pessoas maravilhosas Brasil afora trazendo essa ideia do cristianismo ético, justo e mais humanizado e não desse Cristo opressor e desse Deus macho, homem”, disse Mello.
LEIA TAMBÉM:
- Campanha anti-feminicídio conta com o engajamento dos homens