Algemado, vestido de moleton, camisa e chinelos de dedo. Foi assim, com um olhar de arrependimento e a certeza de que agora demorará ainda mais para voltar para a casa, que Adelson Pacheco dos Santos, 19 anos, esperava sua vez de prestar depoimento ao escrivão da 10 Subdivisão Policial, na manhã de ontem.
Cabeça raspada, olhar vivo e porte forte revelam a imagem de um jovem saudável fisicamente, mas que entre uma palavra e outra deixa escapar uma fragilidade emocional, talvez provocada pela ausência da família. ''Já fazia mais de ano que estava lá, queria muito sair daquele lugar. Eu quero voltar a ver minha família, minha mãe precisa de mim.''
Adelson é um dos sete jovens, todos maiores de idade, apontados como líderes da rebelião que durou quase oito horas e destruiu grande parte do Educandário no último dia 5 de maio. Os sete, que agora estão na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), prestaram depoimento ao delegado-operacional da 10 Subdivisão Policial, Lanevilton Moreira.
Adelson, que foi apreendido quando ainda era menor de idade por tentativa de homicídio e furto, confessa estar arrependido do que fez e completa dizendo que ateou fogo num dos colchões quando percebeu a presença da polícia e viu que não teria como fugir. ''Foi na hora do desespero. Vi que não ia conseguir mais fugir então quebrei meu xadrez e pus fogo no colchão. Eu não aguentava mais ficar lá, eu só queria sair daquele lugar''.
Assim como Adelson, Jonatan Willian Bueno, 18 anos, preso há nove meses por latrocínio, e Hugo Pereira da Silva, 18, por homicídio, negaram a liderança da ação. Eles confessaram ter participado do tumulto, mas acreditam ter sido apontados como líderes devido ao histórico deles. ''Tem educador lá que nos trata muito mal. Eles pegavam no nosso pé por causa do nosso histórico, então, tudo o que acontece de ruim, falam que foi a gente'', comentou Hugo.
Para ele, que não sabia que as consequências de seu ato o levariam para a PEL, a ação só piorou sua situação. ''Faltava um mês para eu sair, por isso mesmo me entreguei assim que mandaram. O pessoal fez isso para chamar a atenção das coisas erradas que acontecem lá dentro, mas eu não estou envolvido em nada, não'', completou. Eles foram questionados sobre a faixa com as iniciais da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), estendida durante o motim. ''Aquilo foi só pra fazer graça e chamar a atenção'', comentou um deles.
O delegado Moreira ouviu outros sete envolvidos no caso na tarde de ontem. Segundo eles, parte dos jovens disse que só prestaria declarações em juízo. Outros afirmaram que não lideraram o motim e apenas provocaram danos de pequena monta. O próximo passo, segundo ele, é relatar o inquérito e encaminhá-lo para a 2 Vara Criminal.(Colaborou Fernando Rocha Faro)

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