'Eu realmente abracei o que eu escolhi'
''Somos do Sinal Verde. Podemos entrar? Meu nome é Celeste''. É essa apresentação que a educadora social Celeste Maria Mendes Pimenta, de 59 anos, utiliza para entrar nos mocós de Londrina.
Há 17 anos, ela trabalha na abordagem de rua do Creas I e diariamente passa por situações imprevisíveis. ''Nós não sabemos como a pessoa vai nos tratar ou como ela irá reagir, pois muitas vezes uma palavra inadequada pode trazer várias consequências'', explica ela, ao reconhecer que na maioria dos casos as pessoas estão sob efeitos de alguma substância.
As equipes se dividem em turnos, o que inclui as abordagens à noite. Para Celeste, qualquer horário oferece perigo, inclusive pela manhã, quando são feitas as visitas aos mocós. ''Já senti muito medo. Pois muitos olham para nós como se a gente fosse estragar aquilo que eles estão fazendo. No início foi muito difícil, mas com o tempo adquiri certa condição de articular e conversar com essas pessoas'', comenta ela, ao ressaltar que é raro convencer de imediato, mas que com persistência eles conseguem fazer com que muitas pessoas procurem outros meios para superar suas condições.
Em todos esses anos, Celeste enfrentou muitas situações de conflito. ''Fico mais preocupada quando a pessoa, sob efeito de alguma substância, resolve pegar algum tipo de material como pedra ou tijolo e me ameaça.''
Quando a equipe vai fazer o reconhecimento de uma área, é preciso o máximo de cuidado, pois eles não sabem o que vão encontrar pela frente. Celeste explica que se não há permissão das pessoas que estão no mocó para a equipe entrar, eles voltam em outra ocasião. Existe também uma determinação de que se a equipe avaliar que existe um grande risco, não é necessário entrar. Mas Celeste surpreende ao revelar um episódio ocorrido recentemente.
A equipe foi até um mocó muito grande e houve receio. Sendo a mais velha do grupo, ela definiu que entraria sozinha. ''Então, eu falei: 'eu entro, mas se eu gritar, vocês correm.' Deu tudo certo. Em seguida a equipe entrou e fizemos o reconhecimento da área, constatamos o número de pessoas e avaliamos todas as características. Na hora, eu só conseguia pensar na necessidade em saber quem estava lá dentro e o que estava acontecendo. Foi o que me passou pela minha cabeça'', completa.
Mãe de dois filhos, Celeste já foi questionada sobre a escolha da profissão. Emocionada, ela relata que é o trabalho pelo qual optou e que realmente se identificou. ''Ainda bem que muitas pessoas pensam como eu. Nós trabalhamos com pessoas nessas condições para que possamos fazer algo melhor. Não é só o meu trabalho. Eu realmente abracei o que eu escolhi'', afirma.
E sobre o motivo de tanto amor pelo trabalho, Celeste responde que quando encontra uma pessoa que superou a condição de rua, a gratificação é muito grande. ''Se no meio de 100 pessoas abordadas, duas ou três aceitam mudar, é um incentivo, pois elas passarão a auxiliar também aqueles que ainda estão nas ruas, servindo de exemplo. Eu vejo sofrimento o tempo todo e lidar com isso não é fácil, mas eu valorizo o que eu tenho e o que conquistei. Agradeço por cada abordagem que faço, pois cada uma é uma aprendizagem. Quanto ao risco, eu sempre digo que a vida da gente é um risco. E sim, é claro que eu não quero morrer, mas não me arrependo de nada do que passei'', afirma. (M.O.)





