Na época casado e pai de três filhos, Moreno recebeu a carta de divórcio da ex-mulher logo que foi preso. Aos 47 anos e trabalhando como pedreiro, ele recebeu a reportagem da FOLHA por quatro vezes em sua modesta casa para falar sobre o assalto ao Banestado.

Por que o senhor estava revoltado com a situação do País?
Na época foi isso mesmo, era salário congelado, gatilho e muita dificuldade, a gente (o grupo) ficou revoltado e aconteceu tudo isso. É o que todo brasileiro vê, a gente não se conforma com certas situações e chega nesse ponto. As cadeias estão cada vez mais abarrotadas de gente que tenta a sorte pelos meios errados, infelizmente aconteceu comigo.

O senhor já havia praticado algum assalto?
Nenhum, nem sonhava.

Houve tumulto na hora do assalto?
Muitos deitaram no chão, passaram mal. A gente foi liberando as pessoas que passavam mal.

Vocês ficaram com algum dinheiro?
Eu não fiquei com nada, só com a história e a cadeia. Não posso dizer se alguém ficou com algum dinheiro.

Como vocês foram pegos?
Fomos cercados na segunda vez, eu, meu irmão e o Ricardo, mas conseguimos fugir por dentro do mato. Quando chegamos perto de um restaurante, na entrada de São Paulo, o Ricardo foi comprar comida. Mas ele deu uma gorjeta muito grande. No outro dia, ele voltou no restaurante tomar uma Coca-Cola e comer alguma coisa. A Policia já estava esperando.

O senhor foi agredido depois da prisão?
Bateram bastante, mas graças a Deus tudo deu certo.

E se o Ricardo não tivesse exagerado na gorjeta?
Haveria uma probabilidade de a gente escapar e a história poderia ser diferente.

Mas que história é essa de bandido bonzinho?
A gente não tinha maldade, e refletindo hoje não vejo justificativa para um erro tão grande.

É doloroso remoer o passado?
Eu creio que pode servir para alguém que esteja pensando em praticar algum crime. É um privilégio estar bem comigo mesmo. Errei, paguei e estou recomeçando da melhor maneira. A coisa é pra frente, não é pra trás.

Poucas pessoas conseguem esse caminho...
Na minha vida tem sido só Deus, Ele é quem me deu esse privilégio de ter humildade e paciência.

O senhor era um preso quieto, em que o senhor pensava?
A cadeia é um mundo totalmente inverso, é o submundo, eu olhava e procurava analisar. Em certos momentos eu pensava: onde eu vim parar? Houve momentos bastante difíceis.

O senhor se tornou um tipo de referência na prisão?
Quando a gente pratica um ato como eu pratiquei, as pessoas querem uma fuga, um espelho e chega ao ponto de perguntar como se faz. Eu sempre disse que não é boa coisa não, nunca fui de incentivar!


Qual foi a pior coisa que você viu na cadeia?
É quando você não consegue assimilar o lugar onde você se encontra e quer colocar a culpa em alguém, quando percebi que o culpado de tudo era eu, esse pior passou a não existir.

Quanto tempo isso demorou pra acontecer?
Demorou alguns anos.

Em quem o senhor punha a culpa?
Não vou dizer, eram vários.

O que o senhor poderia dizer aos reféns?
Diante de todo acontecimento, Graças a Deus tudo foi resolvido da melhor forma, ninguém saiu machucado, acho que eles devem agradecer a Deus também.

Qual é o seu grande sonho?
É não perder essa graça na qual eu me encontro.

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